Quem vê close não vê corre – No Coração do Mundo (2019)

Por Bruno Galindo 

Revisão: Lorenna Rocha

Este texto se ativa tardiamente ao lançamento do filme depois de uma desejada pausa nos meus trabalhos para ver o que ficou no caminho.

O desejo do texto também parte de uma pergunta surgida em minha mente numa manhã entre cafés e notícias de jornal que não têm nada a ver, mas têm tudo a ver com cinema:

Como num sistema social que produz Sérgio Cabral não haverá Comando Vermelho? 

O dilema ético dessa pergunta parece mover questões tão brasileiras quanto contemporâneas e um filme feito em BH (o Texas, Bitch!) traz uma das mais delicadas (sim, delicadas) teses para responder tal pergunta. 

Captura 1 – não me diga com quem andas que não te direi quem talvez sejas

“A fuga cinematográfica é pra quem pode

Estilo Holywood na terra do sacode pobre

Nasci com pouca sorte foda-se

eu mando aqui 

com dinheiro, droga 

eu mando aqui” 

                                                 A Fuga, Xis

A ética do corre é uma estrutura dramatúrgica dentre as mais brasileiras, sendo força motriz, quando bem realizada, de movimentos complexos. Localizada na fronteira entre a construção de personagens e a capacidade do cinema (enquanto forma, não apenas como retórica) de produzir lugares profundos de compreensão de circuitos sociais e culturais e, sobretudo, de aproximação do olhar diante de histórias e arcos narrativos, a ética do corre e como mostra-la é elemento central do longa No Coração do Mundo (2019).

Dirigido por Gabriel Martins e Maurilio Martins o longa demonstra absoluto apreço e interesse pelas quebras de seus personagens, pelas lacunas de conduta e trajetória que constroem o caráter torto, errante e repleto de contradições que são a essência do longa da dupla mineira.

Ao contrário de “cineastas da ética mundana” como são muitas vezes mencionadas figuras como os Irmãos Coen ou mesmo Clint Eastwood – que num certo sentido apresentam como linha de suas narrativas a conduta de pessoas éticas lidando com mundos antiéticos – em No Coração do Mundo é a investigação do próprio mundo antiético e dos caminhos e transformações das personagens por esse mundo que solidifica o corpo ético do filme. Abraçando assim um jeito de contar histórias que, incorporando também menções à filmografia da própria Filmes de Plástico, se revela uma obra deliciosamente embebida na violência da montagem seca que marca a trajetória do bonde mineiro. 

“Melhor assim, 

quem dera fosse assim

a vida numa tela de cinema 

se fosse assim meu fim 

trágico drama urbano du subúrbio

seria o vencedor, o melhor do mundo

melhor filme de ação, melhor diretor

aqui é ladrão, irmão… melhor ator 

não, não, corta volta liga faz tudo 

de novo a fotografia saca só 

que muito loco”

                                                 A Fuga, Xis

O que No Coração do Mundo projeta não está no devir de qualquer redenção, como no caso dos cineastas supracitados, nem num suposto dilema ético que uma personagem atravessa para sair do outro lado do túnel das éticas e moralidades; o coração de No Coração do Mundo tem sua paixão maior na investigação minuciosa e delicada dos procederes instáveis de vida que mobilizam personagens a partir, muitas vezes, do que não nos permitem saber enquanto dividem conosco partes do que desejam alcançar. 

“cada lugar, um lugar, 

cada lugar uma lei

cada lei uma razão 

isso eu sempre 

respeitei” 

A Fórmula Mágica da Paz, Racionais MCs

Num país em que um jovem artista genial como Dj Rennan da Penha é preso pelo fato de ter sido fotografado ao lado de integrantes do crime organizado, sendo seu maior crime ser amigo de pessoas que conhece desde pequeno, No Coração do Mundo ecoa muitas questões que extrapolam o campo do filme. 

Você tomaria uma cerveja com alguém do crime? Você tomaria um café com alguém que pensa roubar uma coleção de joias para poder financiar seu lugar ao sol? É nas tratativas de perguntas como essas que o filme mineiro desloca seu lugar, deixando de lado personagens como os traficantes superstars, os reis do crime, os malandros de velho oeste para trazer ao centro do plano os movimentos de contradição (ou de contra-adição) que produzem algumas das personagens mais brutas e singelas que o Brasil viu na produção da última década.

Fechando o campo narrativo, então, o filme busca traçar pelas linhas do diálogo as diretrizes que, ao fragmentar as crônicas de suas personagens, sugerem a quem vê completar os vínculos, produzindo circuitos de aproximação fundamentais num país anti ético e anti empático como o Brasil.

Pensemos Brenda (Mc Carol, estrondosa) e sua narrativa sobre o tempo passado na prisão. Uma das personagens mais complexas e interessantes é justamente a que menos nos revela, de fato, as chagas e cicatrizes de sua história. O mesmo se repete com o núcleo de personagens que fluem como encontros de respiro e pontos de fruição. Interações como as de Selma e Rose no quintal da casa desta última, ou como as interações de Ana e Marquinhos na rua antes da decisão sobre a fita dada por Rose. Estão nos espaços e vírgulas, com são também os quintais e vielas, que arquitetam internamente a consciência das personagens sobre a anti ética de seus atos ativando assim o princípio ético do próprio filme. 

O descampado da BH Texas assim parece sê-lo até que notemos que os edifícios das paisagens em tela são as próprias personagens. Não à toa – e já que muito se rotulou o filme como primo brasileiro de Hollywood – o longa mineiro está mais próximo de Wim Wenders em “Paris-Texas” do que de Joel e Ethan Coen em “Onde os Fracos não têm Vez”. 

Captura II – Nois aqui, vocês lá, cada um no seu lugar?

A distância é um gesto de composição interessante no cinema. Num sistema que capitalizou suas formas mais tradicionais através do uso de close-ups e dolly zooms que obrigam o olhar a se aproximar daquilo que se conta, a distância da câmera nas composições de mise-en-scène é um procedimento menos comum, mas que surte efeitos instigantes quando usado com talento e sabedoria. 

Isso porque, em No Coração do Mundo, são justamente as distâncias (das pessoas, da câmera, da intimidade das personagens) que cria a distensão que o olhar de quem vê dará conta de reaproximar. 

A escolha, por exemplo, de não aproximar a câmera na sequência da conversa entre Rose e Selma é gesto da mise-en-scène e da decupagem que se manifestam de forma delicada e mais do que interessadas pelo registro intrusivo da intimidade fazem justamente da distância seu meio de aproximação. Porque oferecem ao olhar a composição plena daquela que parece ser uma memória derradeira, talvez a última lembrança que as amigas terão uma da outra, numa conversa que revela inclusive tensões outras para além da amizade à vista. E nesse momento, como nas idiossincrasias da vida, ainda assim o isqueiro falha, a ordem se dissolve porque parte da tese de No Coração do Mundo parece ser a de que a gente não controla a vida; a vida é quem controla a gente.

Encerrando esse texto com uma menção à já antológica cena em que Selma (Grace Passô, esta entidade) fala com sua família no telefone enquanto destrava sua Gloc cromada me envolvo com a obra da dupla mineira por revelar tanto dizendo tão pouco sobre suas personagens. E por construir intimidades fazendo uso da distância como gesto que solicita ao olhar que se envolva pela empatia e resolva as implicações éticas e as crônicas fragmentadas do filme. Porque já diria o poeta, ou alguém do corre, ou alguém que pode estar do seu lado em fuga após um assalto para mudar os rumos fodidos da própria vida: quem vê close, não vê corre.

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