O desejo da repetição – Antena da Raça (2020) – Cobertura: 9º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

Por Lorenna Rocha

Revisão: Bruno Galindo

Aí você vai em cada esquina, é um boteco, uma Assembleia de Deus e uma boca de fumo, pronto: isso é o Brasil, querendo ou não… E a polícia querendo me matar, disse Alídio, entrevistado de Paloma Rocha e Luís Abramo, em Antena da Raça (2020). A dupla reencena o gesto de ir às ruas para ouvir o que as pessoas têm a dizer sobre o Brasil, como fez Glauber Rocha em seu programa Abertura, exibido entre 1979 e 1980, na extinta TV Tupi. Intercalando imagens de arquivo à gravação de entrevistas com personalidades como Caetano Veloso, José Celso Martinez Corrêa, Helena Ignez e pessoas comuns, como Alídio, o documentário traz ao presente a vasta obra e pensamento glauberiano, como quem procura nesse compêndio de registros audiovisuais rastros para uma análise sócio-histórica do contexto político brasileiro de hoje e um vislumbre libertário para o futuro.

Uma das primeiras imagens de arquivo utilizada em Antena da Raça é Glauber afirmando, no quadro Abertura: esse é um desmascaramento histórico. Aderindo ao enunciado, o filme investe no anacronismo enquanto possibilidade de intervenção sobre o presente, tentando elaborar uma mediação imagética em torno das obras e pensamento de Glauber Rocha. A (re)criação mítica e visionária de Glauber Rocha como um homem “à frente” do seu tempo é legitimada por depoimentos de várias figuras públicas, como Zé Celso que afirmou saber hoje, aos 82 anos, das coisas que Glauber já sabia na década de 1970.

Se o filme não chega a ser de cunho totalmente saudosista ao olhar para as obras de Glauber Rocha, acaba sendo presunçoso na leitura política que se dispõe a fazer sobre o Brasil, apegado a um jogo imagético onde passado e presente se atravessam repetitivamente, sem construir, no entanto, formulações discursivas que proporcionem outros caminhos de elaboração discursiva. De forma recorrente, há um cruzamento histórico-temporal que aproxima o momento político referente à ditadura civil-militar brasileira ao bolsolavismo, se alinhando à velha e rasa leitura dos campos progressistas sobre a conjuntura política vigente no país: na interseção entre os arquivos de Abertura e as imagens de manifestações pró-Bolsonaro; na aproximação de personagens de filmes como A Idade da Terra (1980) a personalidades do presente. Se, por um lado, a repetição acaba se tornando, muitas vezes, a fragilidade de Antena da Raça, num outro caminho o documentário cumpre o seu auto-desejo de revisitar as obras do diretor cinemanovista.

Elaborando conexões entre a gestualidade de um entrevistado, em Abertura, a de uma das cenas protagonizadas por Corisco (Othon Bastos), em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), o discurso fílmico constrói a ideia de como Glauber Rocha contaminava suas obras daquilo que enxergava e ouvia nas ruas. Nos arquivos, nos defrontamos com sua performance, muitas vezes, invasiva e autoritária perante seus entrevistados em Abertura, que deixa registrado o incessante desejo do artista de se aproximar do “povo brasileiro”. Esse gesto é reproduzido pela direção do filme sem a força enérgica e controversa do artista, resultando o esforço metalinguístico numa tentativa pouco convincente de se assemelhar à proposta glauberiana na televisão, pois se prende a maneira mais convencional para estabelecer uma relação com seus próprios entrevistados.

Como numa espécie de escavação, Paloma Rocha e Luís Abramo parecem querer encontrar respostas (e leituras) sobre o autoritarismo que nos ronda no presente. A dupla de cineastas se junta à Eztetyka do Sonho para imaginar outros futuros, que parecem reconhecer nas mobilizações políticas contemporâneas, como o #EleNão, quando associam na narrativa imagética a efervescência das ruas ao desejo enunciado na década de 1970. No entanto, apegados à flecha do tempo, o manifesto de 1971 pouco toma forma na visualidade do filme, sendo a imaginação um elemento puramente discursivo, fincado na promessa daquilo que está por vir. Já diria Glauber, a ruptura com os racionalismos colonizadores é a única saída.

Ainda no esforço de encontrar um inimigo comum, reencenando o binômio oprimidos x opressores, que talvez fizesse mais sentido no passado, Antena da Raça perde a oportunidade de complexificar o discurso antiimperialista e anticolonial glauberiano, sob uma ótica apegada a um anacronismo que, ao invés de investir no movimento dialético, se contenta com a vontade de aguçar nas espectadoras o desejo de se (re)encontrar com a obra de Glauber Rocha.

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