Entre texturas e segredos – Enraizadas (2019) – Cobertura: 9º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

Por Lorenna Rocha

Precisei encontrar outras de mim para ouvir segredos há muito guardados. E não vou lhes contar. Mas quero que sintam, o sabor, a cor, a temperatura e umidade desse segredo. Até que possam acreditar que sabem sobre o que ele é. Mas nunca saberão. (Sy Gomes)


Os múltiplos tons de marrom são sutilmente revelados na transição da tela branca ao primeiro quadro do curta Enraizadas (2019), o qual é ocupado por uma mulher negra de pele clara que, com suas pálpebras delineadas em branco, olha fixamente para a câmera, ornamentada de uma grande trança lateral de cor castanha com mechas azuis. Investindo no formato documental mais clássico, alternado a uma trama visual que nos remete a clipes experimentais americanos como Brown Skin Girl (2020), de Beyoncé Knowles-Carter, o filme de Gabriele Roza e Juliana Nascimento percorre os caminhos das tranças nagô, buscando exaltar a beleza negra e o valor dos saberes ancestrais que se escondem entre as texturas dos cabelos negros.

Recentemente, os cinemas negros brasileiros ficaram marcados pelo curtametragem Kbela (2015), que não apenas conquistou espaço no circuito de festivais, mas se tornou uma narrativa visual importante para fomentar discussões sobre as identidades, auto-estima e estéticas negras. Diferente da performatividade impressa nas imagens produzidas por Yasmin Thayná, Enraizadas (2020) se aproxima das representantes do projeto Trançando Ideias, Jussara de Oliveira e Jana Guinond, da trançista Raquel Miranda e da pesquisadora Luane Bento, para ouvir suas histórias, relações e as possíveis significações existentes na arte de trançar. 

As tranças nagôs não são vistas no documentário apenas como um elemento estético. O filme preza por contornar seu tema com questões que se relacionam ao mundo do trabalho de mulheres negras, assim como busca negritar a dimensão afetiva, do cuidado e da elaboração de saberes tecnológicos que estão envolvidas na produção dos penteados. Entretanto, na hipervalorização da fala, o filme perde o que há de mais potente nele mesmo: os silêncios, os olhares e os ruídos que são revelados enquanto os cabelos pretos estão sendo trançados.

O curta Como guardamos um segredo (2019), um dos experimentos visuais da Castiel Vitorino Brasileiro, mobiliza a comunicação justamente fora do registro da vocalidade. Posicionada lateralmente à câmera, Castiel troca beijos na testa com sua companhia, ao longo dos menos de 2 minutos de filme. Uma em frente a outra, o movimento de compartilhamento não-revelado busca outros regimes de entendimento e modos de se afetar, conservando o estado de confidência entre as pessoas envolvidas, ao mesmo tempo que evoca certa coparticipação a quem assiste. 

Vários planos de Enraizadas se registram nesse sigilo que é convocado em Como…: no entreolhar daquelas mulheres minuciosamente ornamentadas; na câmera em superclose que acompanha a dança dos dedos da trançista nos cabelos crespos e escuros de uma das meninas; no sorriso compartilhado entre duas mulheres por cima dos ombros. Mas a necessidade de transparecer possíveis significações que abarcam o universo trançista, o curtametragem perde a dimensão do segredo que é constitutiva das próprias tranças nagô, quando consideramos, por exemplo, seus desdobramentos dentro do mundo colonial, próximas àquilo que não é para ser apreendido em sua totalidade.

A falsa indispensabilidade do uso de palavras tão caras aos processos de autoidentificação e autovalorização das populações negras como ancestralidade ou empoderamento e o desejo incalculável de encontrar um chão a se firmar dentro do mundo tal como conhecemos têm criado, não espirais, mas areias movediças em torno das lutas e temas (podemos falar assim?) da negridade. A sensação, por vezes, é que estamos presas numa gramática e em modos específicos de tocar nos nossos assuntos, que sufocam nossas criações e nos sacodem para um mesmo lugar, num movimento de retorno que nos comprimi. Os tons dourados e brancos dos acessórios na tela, os detalhes das possibilidades infinitas de trançar nossos cabelos, o jazz soteropolitano acompanhando a trama visual que ora preserva a totalidade dos planos, ora se configura de maneira bipartida, também comunicam e afetam, mas sobretudo nos confundem, de forma a nos fazer escapar de certos lugares [coloniais].

Em tempos de visibilidade, podemos guardar segredos?

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