Urgências que suprimem – Cadê Edson? (2019), de Dácia Ibiapina – Cobertura 23 Mostra de Cinema de Tiradentes

Por Lorenna Rocha

O filme Cadê Edson? (2019), de Dácia Ibiapina, documenta sobre a luta por direito à moradia no Brasil, a partir das mobilizações dos seguintes grupos: Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e Movimento de Resistência Popular (MRP). A figura central do enredo é Edson Francisco da Silva, ex-militante do MTST e líder do MRP, que fora perseguido pelo Estado devido a sua atuação nos referidos grupos. Ao dar mais espaço para construção da narrativa sob um viés centralizador e personalista, ainda que haja momentos com a presença de outras pessoas envolvidas ao MTST e com o próprio Édson, o longa-metragem deixa escapar em alguns momentos a força da coletividade que mobiliza esses movimentos populares. Além disso, sua montagem parece propor fazer um panorama da política brasileira que pouco sai dos maniqueísmos de costume que estão impressos nas análises conjunturais da história política recente do país.

Inserido em um contexto histórico em que a truculência e a perda de direitos acontece em níveis (para alguns e algumas) inimagináveis, o documentário encontra um terreno propício para a recepção do público. Não tenho dúvidas de que o filme contribui para a visibilização das lutas das populações sem-teto brasileiras, marcando questões que fogem, inclusive, do território de confronto e demarcam as subjetividades das pessoas estabelecidas nesta realidade. No entanto, a urgência (ou ansiedade) em retratar certos assuntos deixa o sentimento que não foi dado o tempo suficiente para desenvolver tensões que se apresentam no filme e que ajudariam a desvinculá-lo da velha história do binômio “eles contra nós”.

Edson, que inicialmente era militante do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), aponta em uma das entrevistas que o grupo “deixou a luta para fazer política” referindo-se à adesão e cooptação do movimento para se colocar em alinhamento à eleição da Dilma Rousseff, em 2014. Particularmente, a crítica ao Partido dos Trabalhadores (PT) me parece ser um dos pontos altos que foi praticamente recusado pelo filme, por não desenvolvê-lo.

As motivações da saída do militante da organização popular não ficam muito evidentes pelo não-desenvolvimento de suas palavras sobre o ocorrido. Apesar de não sabermos o impacto de sua saída perante os e as militantes que mostram ter uma adesão significativa à atuação de Edson em ambas organizações, o que fica mais impresso na tela é que a sua dissidência política, que o faz construir um espaço outro, o Movimento de Resistência Popular (MRP), parte de um desejo desses militantes pelo processo de radicalização da ação política e de crítica à democracia representativa no país. E esse me parece ser um dos pontos mais fortes do filme de Dácia Ibiapina.

Na cena final do longa-metragem, Edson está sentado sozinho no meio de uma manifestação pró-bolsonarismo em Brasília. O desenvolvimento da narrativa localiza o protagonista como uma figura importante para a mobilização e articulação dos movimentos populares, um propulsor para a luta e para as pessoas que convivem com ele. Entretanto, a construção de um discurso imagético como o mencionado sugere uma personalização da luta que aponta a contradição pulsante no filme, pois vai no caminho contrário à força de coletividade que emana dos movimentos populares de luta pela moradia. 

O plano também demarca a busca do filme em realizar articulações entre passado e presente, com imagens desde 2012, no processo de ocupação de algumas edificações sem função social, passando por mobilizações ocorridas durante as Olímpiadas no Brasil e a eleição de Jair Bolsonaro. O reforço do discurso fílmico com imagens das manifestações em Brasília, durante o golpe de 2016, que marcam a bipolarização no país, acaba esbarrando num maniqueísmo que esvazia alguns temas que aparentam ser mais embaraçados do que essa velha dicotomia. 

Nesse entrecruzamento das temporalidades e dos eventos, a montagem aponta para uma relação entre os acontecimentos e a escalada do embrutecimento da violência policial direcionada a esses movimentos sociais. Entretanto, não podemos esquecer, por exemplo, que a Lei Antiterrorismo foi assinada durante o Governo Dilma, o que legitima institucionalmente a perseguição de diversos grupos de manifestantes pelo Estado. Ao não dar mais espaço para a fala de Edson e optar por uma posição narrativa e imagética que não vislumbra uma autocrítica sobre uma parte da esquerda, o filme perde a oportunidade de se fazer mais complexo diante da conjuntura atual.

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