É uma Carta de Amor – Looping (2019) – Cobertura XII Janela Internacional de Cinema de Recife

Looping, Maick Hannder (MG, 2019)

Por Letícia Batista (SP/PE)

Lembro do meu primeiro amor, de como era incrível ver ele todo dia na escola. De ver ele jogando futebol e ter aquelas borboletas no estômago, de como eu chegava em casa falando sobre ele pra minha mãe. Aprendi sobre platonismo e este foi meu primeiro amor.

Mais tarde, me lembro do meu outro primeiro amor. Eu já estava mais velha, achava que entendia direito sobre essa coisa do coração. Ele também era da escola. Eu estudava de manhã então, podia ver sessão da tarde, as histórias de amor, a intensidade com que isso acontecia, era isso que projetava nesse meu novo primeiro amor. Ele era engraçado, me divertia todas as manhãs. Mas como mulher negra, era difícil ser a mulher desejada, a que tinha o amor correspondido. Este foi o primeiro amor que  trouxe tristeza. 

Continuei assistindo minhas comédias românticas e também a projetar aquele amor e aquela intensidade, porque eu queria viver aquilo. Queria chorar de amor, queria, como o próprio narrador de Looping, um amor para entender as músicas, os filmes, todas as projeções que crescemos vendo.  Não tive outros primeiros amores por um tempo, talvez tenha pensado que aquilo não era pra mim. 

Tive meu outro primeiro amor. Aquele que pude construir com todas as referências de filmes, livros e músicas, acreditando na menina boba que poderia conquistar o homem da sua vida desta forma. Este foi o primeiro amor que me privou. 

O outro primeiro amor, foi mais velha, entendo que aquela intensidade que via o tempo todo, não existia. Ele foi mais calmo, com cautela, olhando agora, diria que um amor menos intenso. Este foi o meu primeiro amor que se transformou no meu melhor amigo.

Meu último primeiro amor foi aquele em que pude sentir de verdade tudo que pensei  só existir no campo da arte. Aquele amor intenso, recíproco. Ouvia músicas e lembrava dele e dos nossos momentos. Este foi o primeiro amor que fez sentido. 

Vi Looping, de Maick Hannder (MG) pela primeira vez no XII Janela de Cinema de Recife numa sessão sobre amor. Sobre a variação deste sentimento que tem várias formas. O filme fala sobre o primeiro amor tardio. De um amor, que foi tardio, não por falta de vontade, mas talvez por falta de liberdade, afinal de contas, é sobre um relacionamento gay. 

A segunda vez que vi Looping no mesmo festival, foi a primeira vez que talvez não tenha prestado atenção em um filme que tinha gostado tanto. Me  peguei pensando nestes amores, nas várias primeiras vezes que senti, de alguma um amor. forma, 

Looping é um filme que em sua narrativa e em sua construção de imagens nos faz pensar nesses amores vividos e não vividos. Nos faz não olhar para fora a partir de debates exteriores, mas para dentro, e cada vez mais para dentro. Por isso agradeço a toda a equipe do filme por me fazer relembrar e pensar sobre todos esses amores, e querer viver, na vida ou nos filmes,  outras primeiras vezes. 

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