Deixa os garotos e garotas sonharem! – Um Filme de Verão (2018) – Cobertura XII Janela Internacional de Cinema do Recife

Deixa os garotos e garotas sonharem!

Um Filme de Verão (2018), de Jo Serfaty 

Por Lorenna Rocha (PE)

Fabulação. 

Ficcionalizar vidas reais. 

Na tela do Cinema São Luiz, imagens e histórias/estórias de jovens periféricos do Rio de Janeiro. Planos cinematográficos que produzem discursos diferentes daqueles que são proferidos pelas grandes mídias, em que a estética é utilizada para reforçar quadros de dor, violência e pobreza sobre como as comunidades periféricas brasileiras “são” ou “devem ser”. Um filme que se passa na zona oeste do Rio, poderia falar sobre milícias, exterminío da juventude negra ou das dificuldades de acesso à educação e saúde. Mas Um Filme de Verão (2018), de Jo Serfaty, nos convida a descristalizar nossos olhares. 

Deixa os garotos e garotas sonharem! 

A sessão se inicia e a tela é tomada por imagens capturadas por uma câmera em contra-plongeé que avista o céu entre casebres, fios elétricos e roupas penduradas nas sacadas. Olhar para cima. O azul que pode ser visto, mesmo entre becos e vielas. A câmera se movimenta acompanhando a trajetória desta localidade e, para nossos olhares educados, poderia ser apenas mais um plano em que se mostra a “verdadeira” favela em seus meandros. Entretanto, a voz em off de Karol contando sobre uma série de aventuras, e fazendo reflexões aleatórias sobre si mesma, provoca o primeiro deslocamento do filme: é hora de imaginar outras realidades. 

Em seguida, altera-se o campo imagético: podemos ver as movimentações de uma escola pública em torno das eleições para o seu grêmio estudantil. O corpo coletivo estende-se na projeção, mas o foco nas narrativas individuais funciona como uma virada de chave – e de perspectiva – no longa-metragem. Ainda que Karol, Ronaldo, Junior e Caio estudem na mesma escola e compartilhem uma amizade (além do envolvimento entre Karol e Junior), o filme nos convida a um mergulho introspectivo nesses personagens, em seus modos de viver o presente e confabular sobre o futuro.

A diretora Jo Serfaty era professora de oficinas sobre cinema em Rio das Pedras, zona oeste do Rio de Janeiro, quando criou laços com os protagonistas deste filme. O documentário, que se contamina com a linguagem ficcional, tinha como intenção contar histórias desses adolescentes durante suas férias escolares. Ainda que essa relação entre professora e alunos(as) não esteja explícita no filme, é um dado importante para compreender a construção da película que, segundo Serfaty, se deu de maneira coletiva, fato identificável no longa-metragem principalmente com a estratégia de utilizar registros produzidos por alguns dos personagens/alunos(as). 

Conforme mencionado por Jo, o argumento do filme surgiu a partir da percepção dela sobre como o direito ao lazer se dá de maneira distinta entre as classes populares e as classes sociais mais altas. Se numa realidade onde o deslocamento na cidade é algo limitado e fazer uma viagem é difícil por não se ter grana, o poder de sonhar, e de olhar para o céu ou para a infinitude da praia num fim de tarde, é a dimensão principal do longa-metragem.

Karol é consumidora de j-pop, ama cultura japonesa, quer arranjar um emprego e sonha em viajar pro Japão. O jeito que ela dá de viver seu sonho é ficar passeando pelo Google Street View e fabulando um videoclipe para si, se teletransportando para o mundo dos animes. Ronaldo separa seu tempo entre o trabalho numa casa de festas infantis, leitura de livros e paqueras pela cidade. Junior desprende seu tempo escutando The Smiths, compartilhando seu cotidiano com Karol e vive na angústia de viajar ou não para Paraíba. Nesse meio tempo usa a câmera (tendo seus vídeos incorporados ao filme) como modo de conhecer (e viajar) o mundo e a si mesmo. Caio traz um sentimento de amizade latente em si, vai a praia com os amigos, trabalha e está em conflito com sua religiosidade. 

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Nesse emaranhado de visões e histórias, o filme constrói diálogos entre as identidades desses jovens e, numa(s) outra(s) camada(s), as questões sociais também aparecem no enredo, até porque elas compõe as trajetórias dessas pessoas. Entretanto, deslocar tais discussões não marginaliza a configuração dessa realidade social e tampouco menospreza tal quadro sócio-econômico: o deslocamento transforma-se em potência, distanciando-se de narrativas com visões deterministas, que limitariam as experiências dessas juventudes de acordo com o meio em que estão inseridos, as quais reforçam o que eles deveriam fazer ou não em suas vidas. 

Diferente do documentário Nunca me sonharam (2017), de Cacau Rhoden, que traz o sonho como um dos componentes de superação para a realidade de jovens estudantes das escolas públicas brasileiras, Um Filme de Verão produz imagens que não se limitam a produzir uma provável verossimilhança daquele contexto social, conferindo outras formas de estar e pertencer àquele ambiente, por meio de processos imaginativos, onde a ludicidade se faz presente na tela. O verão da periferia brasileira também pode ser feliz, tal como os filmes da Sessão da Tarde.

E se pensarmos que os filmes que ilustram as tardes da Rede Globo durante a semana ainda são compostos por produções americanas, com narrativas, em sua maioria, de personagens brancos, Um Filme de Verão traz um personagem que me chama atenção por se distanciar um pouco do mundo americanizado e tecnológico (como o apresentado pela imersão de Karol e Júnior que se divertem com j-pop e The Smiths), o qual imprime na tela nuances de brasilidade através de uma relação familiar e ancestral: Caio e a sua relação com a Umbanda contornam o longa-metragem com a cultura afro-brasileira de maneira muito particular.

Em uma das cenas mais poéticas do filme, Caio ajuda sua avó a organizar algumas roupas enquanto entona um cantiga da religião afro-brasileira, que logo é acompanhado por sua precessora. A cumplicidade em seus olhares e vozes envolvem quem está assistindo o filme. A troca entre ambos também se dá no terreiro frequentado por eles, que cantam enquanto organizam o congá.  A transição do personagem para o a religião evangélica se dá como uma espécie de transmutação, a qual não identificamos muito bem de onde vem as motivações, mas que acontece com uma frase emblemática em que o personagem afirma “acredito em tudo que não posso ver”.

Essa troca de religião poderia fazer com que espectadores construíssem um discurso moralizante sobre a escolha do jovem, que sintomaticamente está envolvida com a própria conjuntura política brasileira, onde a presença das igrejas evangélicas cresceu exponencialmente nas comunidades, conferindo um poder que segue transformando o jogo da política partidária do país e em nossa sociedade. Entretanto, o tema nos leva a um lugar de acolhimento que se desenrola a partir da própria visão que Caio tem sobre suas vicissitudes, já que ele mesmo se coloca como um ser em metamorfose. 

Dentro dessa multiplicidade de universos, o filme termina com imagens sobre coletividade, onde os personagens e seus amigos(as) estão em uma festa em cima da laje de uma casa e que se misturam entre bebidas e tintas neon. Se no primeiro plano destaca-se a presença desses corpos juvenis e performáticos, no segundo é possível visualizar as luzes da comunidade de Rio das Pedras. Mais uma vez o corpo coletivo se apresenta, não dentro da escola, mas na demarcação de onde essas pessoas, por hora, estão, que, sob o agitar da músicas, torneiam, mais uma vez, a imaginação como um lugar possível. Descobri produzindo esse texto que Um Filme de Verão não é apenas sobre juventudes, identidades, sonhos e experiências. É através do sonhar desses indíviduos que a recriação aparece como forma de pensar (e promover) possibilidades outras de ser e estar no mundo. Fabulações como caminhos de (re)criação, como diz Soraya Martins. Modos de pensar novas possibilidades: para todos eles e para nós também.

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