Quanto de memória e afeto uma construção pode carregar? – Last Night I Saw You Smilling (2019) – Cobertura XII Janela Internacional de Cinema de Recife

Quanto de memória e afeto uma construção pode carregar?

Last Night I Saw You Smiling (2019), de Kavich Neang

Por Lorenna Rocha (PE)

Last Night I Saw You Smiling (2019) do diretor cambojano Kavich Neang, foi o filme que abriu as atividades do XII Janela Internacional de Cinema do Recife. O documentário, idealizado inicialmente como uma ficção, nos apresenta o White Building, prédio localizado em Phrom Pehn, capital de Camboja. Em seus primeiros minutos, homens estão trabalhando em uma obra. A câmera caminha pelos corredores e paredes desse lugar onde a vida se dá através de tijolos e concreto. A materialidade das cenas acontece em tons de cinza. No entanto, para além da poeira e da frieza que poderia se estabelecer naquele espaço, havia um mundo invisível que, de maneira delicada, foi capturado pelas lentes de Neang.

Para ser sincera, eu não sabia onde ficava o Camboja. Durante a sessão do filme, parecia estar vendo a casa da minha avó materna, onde a parede de seu quarto é dividida entre a televisão, portas-retratos antigos e pequenos (e baratos) artigos decorativos. Se no primeiro momento do filme lidamos com enquadramentos acinzetados, mostrando o fim da edificação que estávamos prestes a conhecer, a presença de corpos em cena dá outros contornos àquele lugar. É um outro espaço-tempo. Um senhor mexe numa série de papéis velhos e me lembro do meu avô paterno. As crianças brincando pelos corredores de uma arquitetura em ruínas fazem pulsar outras significâncias. Mas essas cenas do cotidiano são interrompidas pela esfera de um poder verticalizador sob aquela construção: o prédio foi vendido para um empreiteira e todas as famílias deveriam se retirar daquele lugar com o recebimento de uma indenização que quase ninguém tinha certeza que chegaria.

Na década de 1960, o White Building foi inaugurado e oferecia residências à baixo custo, as quais eram destinadas, majoritariamente, para a classe média da cidade. Em 1975, Pol Pot, líder do Partido Comunista da Kampuchea, tomou o poder em Camboja. De segmento marxista, tinha como objetivo a implementação de um Estado comunista ruralista, que fez com que milhões de habitantes fossem expulsos das cidades para trabalhar no campo, inclusive os moradores do White Building. Nessa movimentação, milhares de pessoas morreram por questões ligadas ao trabalho, à fome e a doenças, além das mortes por execução realizadas pelo regime, como também perseguições políticas, principalmente, contra a classe artística.

Com a queda de Pol Pot, ex-moradores, incluindo artistas sobreviventes, retornaram ao White Building que, com o decorrer do tempo, foi se tornando um prédio de instalações precárias. Até 2017, com a retirada dos moradores pelo governo vigente, o edifício era associado à violência, à pobreza e às drogas, ainda que a vida artística fosse pulsante na região, com a presença de dançarinos, músicos e tantos outros trabalhadores da cultura. Last Night I Saw You Smiling acontece no contexto em que, mais uma vez, seus moradores estão sendo obrigados a se retirar do lugar onde abriga suas memórias, histórias e afetividades. 

Aos poucos, vamos tomando conta de que o diretor tem laços familiares com as pessoas que foram filmadas. Neang morou naquele lugar. Havia uma vontade que transbordava o seu olhar, através das lentes da câmara, que desejava contar essa história para além de todos os objetos embrulhados ou pelas perdas materiais e simbólicas que ocorrem quando famílias são retiradas do lugar de onde vivem. Ainda que fosse sobre isso, era ainda sobre amor, afeto e pertencimento. As memórias dos(as) moradores(as) deram outros contornos à película, colorindo e reinventando aquelas paredes que se contrastavam com as cantigas de amor e as fotos antigas que eram parte da história daquele lugar.

As questões sobre especulação imobiliária, avanço do capitalismo e disputas de poder integram a narrativa por meio dos takes que nos mostram cenas da cidade e a forma como o governo estava lidando com esse episódio. A vocalidade das histórias é protagonizada pelos residentes que, de maneira despretenciosa, dividem suas lembranças com a pessoa que está por trás das câmeras. O fato do diretor ser pertencente àquele ambiente dá um tom confessional ao que está sendo compartilhado com ele. Algumas das histórias, inclusive, foram vividas pelo próprio Neang. Configura-se, então, uma certo pacto de quem está sendo registrado com quem o registra. E essa atmosfera invade a sala de cinema.

Distante de construir uma narrativa idealista sobre o processo de desocupação do White Building, Neang humaniza os residentes daquele lugar, inclusive o próprio prédio. Se para o poder público e empresarial eles são vistos como impeditivos para a “modernização” do imóvel, o diretor apresenta as subjetividades e memórias dessas pessoas como forma de apresentá-los como sujeitos, pluralizando as narrativas e pressionando o discurso hegemônico que já existia sobre aquele espaço, além de lançar outras dimensões que implicam um acontecimento como esse que estava sendo registrado. O White Building não era apenas um lugar.

Os rastros daquelas pessoas continuam ali. Enquanto existirem, ainda há vida naquele imóvel, mesmo que as máquinas que irrompem a cena, quebrando paredes inteiras, nos queiram dizer o contrário. Como disse um dos moradores, talvez fosse melhor não mostrar aquele espaço bagunçado, sobreposto de uma série de móveis e objetos que, para alguns, ainda não tinha nem destinatário. O que fica, no entanto, são os olhos marejados do tio de Neang, que delineia a saudade e a força de uma memória individual, e coletiva, sobre aquela edificação, que ficava numa cidade que eu até então não conhecia, mas que poderia ser, por exemplo, aqui em Recife. E, na verdade, é: Edifício Holiday, Cais José Estelita, Ocupação Marielle Franco. 

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