Corpo(s) No(s) Mundo(s)

Este texto faz parte das ideias do curso “Melanimagens: a presença negra nos videoclipes”, ministrado no Sesc Belenzinho de 7/11 a 28/11

https://www.sescsp.org.br/programacao/convidar/311026_MELANIMAGENS+A+PRESENCA+NEGRA+NOS+VIDEOCLIPES

Sobre dois clipes de Luedji Luna

O corpo negro (incluindo aqui já toda a essência de sua pluralidade) é, para o mal e para o bem (abaixo explico o rigor da ordem) um objeto cênico vivo. A princípio, e naturalmente, a condição de objeto surge aqui no sentido de ser um elemento narrativo e “encenável”, que pode, ao se colocar ou retirar do centro do olhar, produzir sentidos. Não a toa a melanina tem, dentre outras características, a capacidade de refletir cores e luzes, de manifesta-las em sua própria forma física, e é essa dupla capacidade reflexiva que afirma os corpos negros (a corpura, a presença, um tipo de posteridade presente que difere a encenação dos corpos negros de corpos brancos, historicamente, por exemplo). É, portanto, ao recondicionar a construção do corpo negro como um corpo estranho para propô-lo como corpo vivo é que algumas produções se destacam

A relação da forma do videoclipe como um gênero essencialmente corporal e do corpo como mise en scene de resistência é um jogo de questões ótimo de se jogar, e tem muita gente pensando nisso

Por isso, então, esse texto se dedicará a estudar brevemente o uso do corpo cênico em dois clipes de Luedji Luna que, juntos, oferecem reflexões interessantes sobre pensamento fílmico e, ainda, sobre uma curadoria pop e popular do olhar

No que diz respeito ao pensamento fílmico começamos então pensando o clipe “Um Corpo no Mundo”, dirigido por Joyce Prado e produzido a partir daquela que, pra mim, é a mais bela canção produzida dentro do segundo trabalho musical mais interessante feito no Brasil em 2017 (perdendo apenas para o gigante álbum “Ascensão”, de Serena Assumpção). A figura de Luedji Luna e sua presença em cena criam, neste clipe, um movimento interessante, próximo daquilo que Ana Pi, outra jovem cineasta negra brasileira, também estuda: o corpo que se vê não desvela a si, mas àquilo que o cerca

Ou seja: ao existir em cena e colocar-se no lugar de uma performance pública, o corpo que vemos começa sim como centro, mas aos poucos nos sugere olhar ao redor, às reações e às relações do mundo em volta, criando um ciclo simbólico: o corpo pensa o mundo e o mundo pensa o corpo

Que mundo é esse, então? No caso deste primeiro clipe é a terra das contradições e das exclusões, a capital brasileira das desigualdades, São Paulo. Servindo também como um fundamental registro de um movimento cultural e econômico único que ocorre na região da República, no centro da cidade (que não apenas revitaliza o espaço mas cria a projeção de ser ali, daqui alguns anos, um bairro de forte afluência e fluxos de África em suas mais variadas tecnologias). O clipe propõe o corpo cênico de Luna como espelho duplo – reflete quem a cidade não vê e reflete o que vêem aqueles e aquelas que não se vêem na cidade

Pode parecer simples, a primeira vista, mas é bastante complexa a relação que Joyce e sua equipe constroem aqui

Atravessei | O mar | O sol | Da América | Do Sul | Me guia

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E enquanto canta o corpo-monumento de Luna circula por espaços onde os monumentos ainda são aos bandeirantes, aos assassinos, aos sociopatas da história

Mas para onde esse sol aponta, afinal? É no clipe de “Banho de Folhas” que a resposta caminha a nós, trazida por Luna, Joyce e equipe, mais uma vez. O cenário é Salvador, Bahia, Luna agora está cercada de cores, patuás e ebós, o corpo filmico dança e se liberta, invertendo o fluxo do primeiro clipe: a energia do espaço se manifesta no corpo cênico de Luna que, ao dançar e construir sua perfomance numa outra chave, altera a relação de nosso olhar com o espaço

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Não há diálogo, nem ambas as músicas necessariamente ditam o que se deve entender, mas da relação entre corpo, espaço e câmera (conceito muito citado mas pouco elucidado, que formará a essência do que chama-se Mise en Scene) nasce uma narrativa bastante complexa e um diálogo muito interessante entre os dois clipes

Ainda, pensando curadoria, há um bom caminho aqui caso considerássemos fazer uma sessão sobre corpos cênicos, ou sobre espaços de cena, ou sobre narrativas entre corpos e espaços, e por aí vai

A conversa entre os dois clipes é um ótimo exercício de direção e de uma certa pedagogia curatorial cada vez mais necessária e bem-vinda

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