o cosmos de um condomínio

Por: Letícia Batista 

Piscina. Um lindo prédio perto da praia no Rio de Janeiro. Prédio com elevadores e porteiros. Vizinhos cordiais. Apartamento espaçoso. Casa bem mobiliada. Escritório com computador caro e muitas plantas. Sair para correr em um parque próximo de casa. Voltar do trabalho e dar um mergulho no mar. Essas são as características de uma classe média no Rio de Janeiro e, por consequência, da protagonista do filme

Estamos às vésperas da Olimpíadas de 2016, momento em que a cidade do Rio de Janeiro está sendo loteada e repintada para turistas. Mormaço se inicia com a apresentação das personagens e onde estão inseridas. A personagem que acompanhamos é Ana, uma advogada. Voltando para casa ela está perto de um prédio que foi demolido, vemos uma fumaça que logo chega a um condomínio no qual há uma família se divertindo na piscina. Estamos agora localizados no espaço-tempo da personagem.

Em Mormaço os protagonistas são a classe média-rica carioca e a periferia não passa de mera coadjuvante; talvez menos que isso. Na verdade sinto que a periferia só está ali para reforçar um heroísmo dos protagonistas ricos, burgueses, classe média. Conseguimos, ao mesmo tempo, ver aquele espaço como uma comunidade: a conversa que rola entre a advogada e os moradores, por exemplo. O medo, a vontade de ficar. A resistência potencial que há naquelas conversas deveria ser o mergulho mais profundo que a narrativa poderia fazer, dando mais protagonismos a essas pessoas. 

Toda vez que Ana aparece na comunidade sabemos que há um morador a menos que aceitou a negociação da prefeitura por medo. Mas em nenhum momento vemos a cara dessas pessoas, não as conhecemos, não sabemos a forma comos elas saíram e com o que elas saíram. Cada vez mais ali, naquela narrativa, medo e resistência vão sendo mostrados como uma luta da classe média dentro de um condomínio. Ouso dizer que mesmo os personagens que não aparecem me mostram mais carisma e complexidade que a personagem principal. 

Penso no momento político que estamos, sabemos que haverá luta, então onde cabe esse discurso? Será que para lembrar mais uma vez que as “minorias” sempre estão nas linhas de frente e que a resistência dos privilegiados é diferente?  Ou que um corpo branco caído é mais valorizado que outros? A fragilidade desse discurso me incomoda porque para mim não passa de uma reprodução de privilégios políticos e sociais que, no fim das contas, Mormaço só ajuda a lembrar de quem são, e sempre foram.

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