Um Pensamento Insistente

escrito por Priscila Nascimento

Ver, não é a mesma coisa que olhar, pode-se olhar sem ver. E não há garantia de o que se vê seja efetivamente o que se é. (Achille Mbembe- Crítica da Razão Negra.)

Reassistindo a belíssima montagem de Cidade de Deus (Fernando Meirelles, Kátia Lund, 2002) lembro das breves frames em Crítico (Kleber Mendonça Filho, 2008). Há um momento em que aparecem equipes reunidas. Uma das equipes são os diretores de Cidade de Deus e os atores. Algo na organização dos corpos me chama atenção naquele momento, e me fez rever a cena enquanto revisito o filme. O primeiro a ser indicado a quatro oscars, considerado, segundo a wikipedia, um dos filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos. E aqui termina o primeiro parágrafo.

O negro recém liberto da escravatura fora jogado na rua, sem poder ter emprego pois a lei não dá empregos a vadios sem tetos. Para ter teto, endereço e lar, se abrigou em lugares que os senhores brancos  não queriam, não fiscalizavam, pois ao branco tudo pertence. E ao negro restou criar as favelas. Estruturas precárias dentro das cidades que seguiram a divisão casa grande e Senzala. O branco então que tudo sabe e tudo pode, chega um século depois com sua câmera, demoniza os pretos, seus lares, suas casas, suas vidas e hábitos. Monta as imagens e lança para o mundo, para outros brancos entenderem como vivem esses brasileiros esquecidos por Deus. Belas imagens secas e quentes sobre esse lugar seco e quente que é a favela. Sem esgoto, sem asfalto, sem planejamento, mas com o filmar do branco que lucra com seu crime histórico.

“Na distribuição colonial do olhar, sempre existe quer um desejo incestuoso, quer um desejo de posse ou quiçá de estupro. Mas o olhar colonial tem também por função ser o próprio véu que esconde essa verdade. O poder na colônia consiste, pois, fundamentalmente no poder de ver ou de não ver, de ser indiferente, de tornar invisível o que não se faz questão de ver. E se é verdade que “o mundo é aquilo que vemos”, pode-se então dizer que, na colônia, é soberano o que decide quem é visível e quem permanece invisível.”*

Assisti Baronesa pela primeira vez em um cinema localizado em Casa Forte, em  Em 2017. Bairro esse que guarda com muito esmero seu passado colonial e cuidadosamente afasta com a mobilidade urbana os indesejáveis, para que esses espaços continuem servindo a quem sempre pertenceu. O filme que poderia ter a história de alguma vizinha minha ou da minha cunhada, mãe de três filhos do meu irmão, Nos vê como problema. Nos captura enquanto amostras para o zoológico. E por nós falo em favelados. O doc ficção observa Andréa que quer se mudar e Leid, cujo o marido está preso e cuida dos filhos sozinha. Nesse meio tempo, enquanto as mulheres dialogam sobre sexo, drogas, prazer e libertação, o registro é feito com o tesão do momento da descoberta, como se aquela filmagem registrasse de fato esses eventos na vida daquelas mulheres e como se ao favelado  faltasse desenvolver esses pensamentos, que serão conquistadas pelo registro. Lembro-me com mágoas que nunca me deixaram a sensação de me ver em zoológico. A utilização do som, meu artefato preferido do cinema, na dramatização de uma das cenas finais. Onde a mãe é culpada pelo lugar onde mora, as condições onde vive e  por não ter o menor apoio na criação dos seus filhos. Mas o que mais me machuca para que eu não esqueça essa mágoa. É a total perda da privacidade daquela família, naquele ocorrido. Há um plano parado, com uma criança em foco e o som denuncia tudo o que está acontecendo dentro da casa, dentro da família, nenhuma privacidade para algo tão delicado. Mas porque nós favelados seríamos dignos de algum respeito? E aí entra minha relação com o zoológico. A exposição total e sem

nenhum pudor por alguém que entrou lá por alguns meses após uma pesquisa de campo e em seguida roda esse filme por todo o país ganhando prêmios com a exposição de favelados em telas zoológico**.

“No limite é preciso calá-lo. Em todo caso, sua fala é indecifrável ou, no mínimo, inarticulada. É necessário que alguma outra pessoa fale em seu nome e em seu lugar, para que aquilo que ele pretende dizer faça sentido na nossa língua. Como bem mostrou Fanon e, antes dele, W.E.B. Du bois, aqueles de quem foi suprimida a faculdade de falar por si mesmo é sempre forçado a se considerar, se não um “intruso”, então alguém que aparece no campo social unicamente sob a forma de um “problema”.*

A branquitude da qual tudo a ela pertence, tudo sabe e tudo vê, não enxerga porém o que a mim tanto incomoda nessas representações. Existe uma dificuldade em se reconhecer nesse lugar enquanto o branco com a câmera e o poder da narrativa . O poder de olhar, de falar e criar narrativas predominantes que quase nunca estão conectadas com a honestidade. Essas que demonizaram meu povo, minha cor, minha sexualidade, minha vida. Me afastaram do meu passado, minhas origens, meus ritos. Existe toda uma história predominante criada em farsas, existe ainda uma crença entre os brancos e uma determinada classe de que eles carregam a salvação e a representação única e possível da realidade ou da ficcionalização do real. Sabendo sobre o treze de maio, sobre os povos originários e do apagamento das minhas origens. O que eu quero dos brancos que tudo sabem e tudo podem é apenas o dinheiro para produzir minhas narrativas.

**Telas Zoológicos. Atualizações que acompanham a tecnologia na perpetuação do que é normativo e do que ganha caráter de zoológico. A tela zoológico narra então para o normativo tudo o que é estranho e desconhecido criando um entretenimento do habitat.

*MBEMBE Achille, Crítica da Razão negra,(2013)

 

 

1 comentário Adicione o seu

  1. Dandara de Morais disse:

    É sobre isso. A necessidade da branquitude que acha que precisa falar pelo povo preto ou outras minorias. Arrasou com referências bibliográficas pessoais e internacionais.

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