Quando as regras servem pra decretar o meu fim (Cartuchos de Super Nintendo em Anéis de Saturno, Leon Reis, 2018)

por Letícia Batista

Nível 1: África com reis e rainhas

Nível 2: entrada dos europeus no continente africano

Nível 3: Escravidão

Nível 4: Libertação dos negros escravizados

Nível 5: Ascensão de uma supremacia que odeia negros

Nível 6: Segregações

Nível 7: “Democracias Raciais”

O antagonista sempre atira primeiro”. Uma fala em off aparece enquanto vemos o trecho de O Nascimento de uma Nação de D. W. Griffith. Sabemos que nesse jogo-narrativa o jogo nunca muda. E narrativa só se atualiza

Qual é o nosso antagonista? O que acontece do outro lado? Como sobrevivemos desde o nível 1 até agora?

Cartuchos de Super Nintendo em Anéis de Saturno se inicia com a aproximação do mapa, delineando o ponto ao qual precisamos ir. Quase como no próprio vídeo game. Estamos em Vila Velha, Ceará. Nos é apresentado nosso personagem, Cecil, 20 anos, sem dinheiro e com 200 km pela frente. Quase como no próprio videogame.

O primeiro desafio de Cecil é o problema a ser resolvido com a bicicleta que quebrou. Cecil precisa achar um lugar para consertá-la. Cecil encontra seu companheiro de jogo. Nesse meio tempo são atacados pelo primeiro monstro e levados para outro lugar, que desconhecemos inicialmente. Um trecho de O Nascimento de uma Nação num televisor. O Nascimento de uma Nação é o vilão do filme

Aqui, observo uma comparação, entre a caça aos negros de antigamente e a caça dos dias atuais. O racismo não é o mesmo. Impossível ser. Mas ele ainda acontece, a caçada continua sendo atualizada o tempo todo. Quando um dos trechos do filme acaba, vemos nossos personagens em uma sala de aula. Fim da fase 1.

O racismo que Leon coloca no filme não é o mesmo que estamos acostumados (ou não) a ver. Não é negro morrendo, não é mãe chorando o filho perdido, não é o traficante. Aqui vemos a nossa solidão, vemos os problemas de amigos brancos que não são racistas pois “tem até amigos negros”, entendemos ali quais são as regras do jogo

Dentro de uma sala de aula, com cadeiras empilhadas, o companheiro do nosso herói joga dinheiro para Cecil e dizendo  “… dez pelo não estranhamento diante da mãe do Fernando que te chamou de aquele neguinho” e, o principal: “cinco pelas obediências de calado, transformadas em piadas na sala de aula”. Racismo dentro das instituições, dentro de alunos e professores. Começa na escola, vai para a faculdade e continua no mercado, nos jogos, em tudo. A segregação é institucionalizada. Fim da fase 2.

Última atualização: a democracia racial fez todos “não serem racistas”

O processo de “democracia racial” vem transformar esta nossa narrativa no próprio antagonismo. Foi sempre assim, fomos nós que com muita luta e sangue conseguimos acabar com todos os monstros do nível anterior, dos níveis anteriores. O nosso monstro aqui é igual aos dos jogos, é o mesmo, e toda vez que acabamos com ele, ele volta mais forte, tem três vidas de bônus.

Porque, como diz Tássia Reis, “…as regras servem pra decretar o meu fim. E se na última atualização deste jogo o racismo virou piada institucionalizada, precisamos lutar para não haver uma próxima

Começo da fase 3.

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