O Caso do Filme Evidencia

Documentário gaúcho com alcance de público, pleito ao Oscar e discurso de militância bastante direta, o longa “O Caso do Homem Errado”, dirigido por Camila de Moraes, figura entre os filmes brasileiros que movimentam discussões interessantes nas relações formais e econômicas em que se sustentam. Porque é cada dia mais impossíveis falar de forma (representação) sem falar de estrutura (representatividade)

“O Caso do Homem Errado” funciona ao mesmo tempo como específico audiovisual para ampla defesa das vítimas negras do racismo e para acusação das instituições racistas brasileiras. O Caso do Homem Errado é, portanto, um filme-evidência, em três sentidos

Evidência 1

Este documentário de Porto Alegre desvela a narrativa do erro histórico e institucional do Brasil. Erro que se repete com aproximadamente 77,3% da população negra e jovem entre 15 e 29 anos. Erro que faz um jovem negro ter 3 vezes mais chances de ser morto do que um jovem branco. Erro. Erro?

Dirigido por uma jovem documentarista negra nascida numa das demografias mais brancas/eurocentricas do Brasil, o filme seria simbólico já aí; mas há muito mais a descobrir e pensar neste filme

A estratégia de observação deste documentário sobre o episódio do assassinato de Júlio César de Melo Pinto pela brigada militar de Porto Alegre em 1987 torna-se peculiar por um motivo: não é um filme de arquivo, embora faça uso de arquivos para constituir suas impressões

Os arquivos expostos no filme sobre o caso de Júlio César servem de matéria-prima para a criação de um outro registro: o da evidência, o da matéria que dá concretude aos relatos e experiências captados a partir da proximidade de quem se entrevista com a dinâmica do episódio vivido. Dos traumas se formam evidências, que são, na essência, imagens de arquivo subvertidas pelo que Bell Hooks chamará “olhar opositivo”, ou Manthia Diawara nomeará “olhar resistente”

Os arquivos não formam os discursos. Os discursos reformam os arquivos

O filme remonta a história de Júlio Cesar, muito mais do que reconta-la, mas ao invés de invadir os traumas, o documentário firma um pacto de intimidade para tratar do trauma causado pelo episódio, ao invés de expô-lo em praça pública (ao contrário do que faz “Ônibus 174” de José Padilha, que voltará mais abaixo)

Ao organizar essas intenções e relações em seu discurso de imagens o filme se movimenta o tempo todo entre o caso de Júlio César e a eminente repetição do mesmo caso ocorrido com tantos outros jovens que podem ser Júlio César, ou Júlio, ou César, exatamente agora. A militância em “O Caso do Homem Errado” não está no discurso retirado das imagens de violência, mas na convicção de que lutar contra a repetição dessas imagens é quase que indissociavelmente um gesto militante, de intervenção no mundo, de ruptura com os termos racistocratas das cúpulas de cinema e de imagens do Brasil

Evidencia 2

O filme coloca em relevo o imaginário coletivo que autoriza, na mentalidade racistocrata brasileira o genocídio negro justamente por indiciar todas as pessoas negras (assassinadas pelo Estado) como se fossem a mesma. E para além dos aspectos de cinema em si este filme se opõe a todo um sistema de imagens que produz cenas como a da cobertura da Globo News sobre a invasão ao complexo da maré em 2010.

Aqui outra digressão. O filme de Camila não foi pré selecionado ao Oscar. A reportagem da Globo News foi super premiada. O problema não está só nas imagens. O problema não pode ser apenas das imagens. A direção de Camila contrapõe seu documentário a toda essa tradição de um jeito simples: dando nome aos bois

Se, por exemplo, em “Ônibus 174”, de José Padilha, as responsabilidades pelo genocídio são diluídas no discurso generalista acerca de entidades sem face (A violência, O estado, A sociedade, tudo surge no singular e no genérico), em “O Caso do Homem Errado” é diferente

Sabemos, enquanto plateia/sociedade, desde o começo do filme, pela própria maneira que o fiz escolhe ser em forma, que a polícia aqui é a racista, que o estado aqui é o genocida, que a sociedade aqui é a racistocrata

Mais uma vez: “O Caso do Homem Errado” não é uma tese, é uma prova cabal; não é uma digressão, é uma evidência

É curioso pensar como, neste documentário, o cuidado com as imagens produz a transformação do trauma da violência em memória por justiça. É interessante como as escolhas de Camila e da equipe do filme tomam as imagens de arquivo do episódio justamente como premissas para questionamentos das versões oficiais. E em tempos de sensacionalismo e coberturas jornalísticas sanguinárias essas escolhas são uma aula de sensibilidade e responsabilidade ética e histórica diante das imagens. E das não imagens

Evidência 3

A cronologia histórica das imagens do Brasil sugere uma narrativa que não me parece arbitrária: o período escravocrata brasileiro é registrado quase como fábula pelos primeiros indícios pictóricos coloniais (quadros, gravuras, afrescos e afins); não há sangue, não há túmulos. A história que consta nos autos oficiais das imagens brasileiras é o sonho de um senhor de engenho

O tempo passa e a medida em que a tecnologia sugere uma aproximação inevitável da verdade (genocídio) através de câmeras fotográficas e do vídeo como meio de registro, a narrativa histórica colonial se ajusta novamente e cria essa dimensão da imagem chamada “realidade” (documentários, sensacionalismo e programas de TV) onde o corpo negro passa de escravizado a perigoso

A diferença é que o senhor de engenho agora chama-se Estado e não pode ter sangue nas mãos

Cria-se O Homem Errado

Primeiro passo: o homem errado está no lugar errado na hora errada por ter nascido na hora errada no dia errado no lugar errado no país errado

Segundo passo: toda bala é perdida, toda justiça é cega, tudo é desvio embora alveje os mesmos corpos

Coincidência demais não é só coincidência e o documentário de Camila de Moraes sabe muito bem disso

A narrativa do Brasil é a do preto perigoso não a do preto dançarino. E se este preto for dançarino aos olhos brancos ele será um dançarino perigoso. O Brasil é o país onde capitães do mato têm programas de tv ao final das tardes e os jovens pretos são filmados como inimigos de estado

Surge o terceiro ponto fundamental de “O Caso do Homem Errado”: o corpo que precisa ser encontrado, ou a evidência que precisa ser construída, é o próprio filme

O documentário de Camila carrega em si a generosidade de um olhar que percebe-se no meio e não acima da história; penso em generosidade porque a escolha de Camila e da esquipe por fazerem este filme desta forma pode ter pesado ainda mais na não seleção de “O Caso do Homem Errado” para o Oscar, por exemplo. Ou na recusa primária do filme em diversos festivais de cinema do Brasil.

Contudo, mesmo com uma história tão singular em mãos (e olhos), e que em posse de outras pessoas e formas de cinema poderia virar um achado documental farsosamente “particular e único”, o filme de Camila prefere outro caminho

Ao abdicar o lugar de retrato da “realidade” o filme vira evidência e ao virar evidência torna-se prova de acusação contra a consciência embranquecida pelas imagens da história brasileira, contra o genocídio de ontem e de hoje.

Por fim e não menos importante: o desejo de Camila pra que o filme seja visto e discutido foi das coisas mais envivecedoras que presenciei nesse ano tão desolador. Porque não basta fazer filmes, é preciso fazer imaginários, e pra isso só uma coisa é verdadeiramente essencial: alcançar o máximo de olhares possíveis e se dispor a confronta-los. Ou, muita vezes, abraça-los.

1 comentário Adicione o seu

  1. stela maris da costa disse:

    Que análise! Parabéns! Gostei demais dessa análise cirúrgica. Precisa. Perfeita. Surpreendente.

    Curtir

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