Pega a Visão – Peripatético – é possível o antídoto ser também o veneno?

A pergunta que abre esse texto tem rondado minha mente nos últimos meses. Por isso de início vale dizer que esse texto não será uma análise do curta metragem Peripatético a partir de pensamentos sobre cinema somente, mas como abertura de uma discussão que se expande e amplia a partir de diversos vetores, diversas referências, diversos tormentos. Outro aviso: esse texto trará bem mais perguntas que respostas. Fechou?

Pois bem. Minha vida enquanto crítico, ou melhor, o momento em que perdi o medo de dizer que sou crítico de cinema se deu, ao menos pra mim, quando à época do texto “Sobre critérios, seleções e solidões”, publicado no Cinefestivais, na última edição da Mostra de Cinema de Tiradentes. Não fosse aquele texto talvez esse texto que escrevo agora não existisse. Fato. Porém, sempre existe um porém.

Ao mesmo tempo em que penso naquele texto como porta aberta, me tomo de uma certa angustia quando penso a maneira como resolvi entrar na sala: será que joguei o jogo certo? Será que usei de uma estratégia válida? Será que ao dizer tudo aquilo não fiz exatamente o papel que esperavam que eu fizesse (“eu” enquanto Crítico Negro™)?

Perguntas essas que ainda me angustiam e que de certa forma me atravessam também quando penso em Peripatético. Com quem o filme conversa? A quem o filme se dirige? O que significa exatamente assumir uma estética popular, hoje em dia? Quem criou essa noção do que é popular? Pausa. Eu também não sei ao certo. Sei, sim, que popular não é só o pop, que popular não é só novela. Mais do que a forma, popular me parece necessário ser o exercício do pensamento crítico (não só na crítica, naturalmente). Porque o pensamento crítico caminha para um lugar fundamental, e ao qual retornarei algumas vezes: o de conceber imagens. Há algum perigo em pregar essa etiqueta de “popular” nas coisas, porque pode sugerir que não há concepção de imagens no povo. Pausa.

Na gravação do famoso show na USP, em 1973, em dada altura Gilberto Gil fala algo sobre uma necessidade de estar livre dos vícios da intelectualidade. Dentro da USP. Dentro da Escola Politécnica da USP. O código. O manual do bom pensante. A tradição européia de dar suas próprias razões ao mundo apenas porque tem os instrumentos para isso. A Literatura de Cordel, Luiz Gonzaga, Cartola, Mc Fioti, Mc Carol, Racionais, Caju e Castanha. Gilberto Gil. Lima Barreto. Popular? Por vezes compro a história e chamo assim, acho válido, acho estratégico. Por outras me pergunto se o popular não é a criação natural que a intelectualidade do poder, dos dominantes, das hierarquias tornou específica. Popular, suponho, não é necessariamente o que contraria a norma porque a norma (a regra, o jeito certo, o jeito mais rebuscado) é um regime. Popular me parece estar naquilo que a norma é incapaz de criar.

Peça a um doutor em literatura pra escrever 16 linhas de um rap. Ou a um mestre em música erudita para produzir um boom bap. Exemplo obvio? Vale então pensar como a percussão é muitas vezes tida como um tipo de musicalidade menor, da ordem do popular pela intelectualidade da norma. Mas há quem saiba que cada orixá tem um código próprio de tambores que lhe dizem respeito. Uma linguagem sonora própria. De novo, arrisco: o popular é uma invenção da intelectualidade, é preciso sempre pensar qual código de barras vai nessa etiqueta. A intelectualidade quer ser, o popular já é. E de tal forma já é que quando se encontra sem as amarras subverte de fato o regime: o sample de MC Fioti em “Bum Bum Tam Tam” é de uma sinfonia de Sebastian Bach. Vai vendo. Fim da pausa.

Lanço essas perguntas como espécie de cartografia de caminhos, de conversas. Mas acho justo que eu sugira aqui algumas respostas, logo: não acho que as escolhas formais em Peripatético sejam as mais eficazes, sobretudo porque parecem depor contra as potências do próprio filme. Assim como, penso agora, ao escrever aquele texto em Tiradentes não joguei um jogo do qual pudesse sair vencendo, o filme de Jessica Queiroz parece não perceber que carrega em si convicção semelhante.

Isso porque a dinâmica da estrutura racista e capitalista é tão latente, as perversidades são tão declaradas, que por vezes sugerem também serem da mesma maneira obvias as maneiras de contrapor esses sintomas das imagens. Aqui, diria minha vó, minha cobra começa a fumar.

Há uma sofisticação bastante perversa na estrutura que organiza o jogo de opressões, e isso me parece um traço quase constitucional das estruturas de poder ao redor do mundo: não apenas a dinâmica da opressão se estabelece como regra (ou, no caso do cinema, como forma), mas também consegue prever suas próprias contra-formas. Ou seja: o racismo (enquanto sistema de valores e princípios torpes), por exemplo, não apenas existe enquanto racismo, mas sabe que existirão e quais serão seus anti-racismos. E enquanto o jogo for de um pra um (não há personagens negros, então se fazem personagens negros; não há periferia sem violência, então se fazem periferias sem violência etc) sinto que essa corrida tende a ser sempre em torno do próprio rabo.

Porque é precisamente nesse momento que as tensões tendem a virar performance, nem tanto daquele ou daquela que se constitui num sistema de idéias e valores anti-opressores (porque a performance nesses casos pode sim ser um trunfo na disputa), mas, no caso mais grave: daqueles e daquelas que se constituem num sistema em defesa das opressões. Porque, tocando o nervo central do que quero dizer: num país onde essa dinâmica nasce e cresce na vida real (Marielle, Claudia, Amarildo, saca?), que dizer então de um campo tão frágil e manipulável quanto o do cinema. Volto a Peripatético.

Penso o plano em que a protagonista quebra a quarta parede, falando diretamente com a platéia, e não consigo me desvencilhar dessa angustia. A sensação de que não há ali desconcerto ou desajuste, de que não há força para além de um espanto premeditado. Volto ao meu tal texto e a mesma sensação me toma. Há sim uma fúria, uma raiva incontida e que, falando naturalmente apenas por mim, não deixará de existir. Mas talvez não esteja ali testado o melhor antídoto pro meu veneno. Assim como não me parece o antídoto mais eficaz pro veneno das personagens principais em Peripatético uma certa subserviência ao que não são, ao que não podem ser, e que se resolve pela expressão literal disso. Segunda pausa.

Quando em Faça a Coisa Certa, de Spike Lee, o sempre efusivo Buggin Out vive dizendo que precisam ter mais quadros de figuras históricas negras na parede. De uma Pizzaria Italiana. Mookie (personagem vivido por Lee) diz ao amigo, ou ao menos sugere, que aquilo não faz o menor sentido. Quem viu o filme sabe como a tal pizzaria termina.

Penso também no que J Dilla fez com seus samples em sua curta carreira musical como produtor de rap. Suas músicas não são apenas raps sampleados, são sim um novo estilo de fazer música. Uma nova linguagem musical, afinal. É também o que Octávia E Butler faz em suas ficções científicas. Que não são apenas ficções científicas negras. Mas outro tipo de linguagem de ficção científica. E no cinema, quem seriam os J Dillas, as Octavias E Butlers? Não sei quem são, mas sei quem podem ser. Zózimo Bulbul, Ary Candido, Waldir Onofre. Há Susan Gomez e Gloria Rolando, em Cuba. Há toda uma América Central e do Sul (digo assim a mim mesmo). Aqui não há outro resumo se não um coletivo: é preciso parar de existir pelo que não seremos e começar a existir pelo que já somos. E fomos. Na prática: Café com Canela, de Glenda Nicácio e Ary Rosa. Há algo nesse filme que liberta discussões. É preciso não esquecê-lo, movimentá-lo sempre. Fim da segunda pausa.

É preciso olhar para personagens e pensar se são negros e negras; ou se não são brancos. É preciso olhar para espaços e geografias e pensar se são periféricas; ou se não são do centro. É nesses detalhes que se aponta uma dignidade outra.

Ir a festivais e ser um crítico negro, ir a festivais e ser um crítico negro que escreve sobre filmes negros. Será que é isso mesmo? Ou outra impressão: o tanto que dizer os branco isso e os branco aquilo não é justamente viver numa dependência prática e simbólica das estruturas brancas, de poder, de dominação? Talvez eu precise ir mais a festivais negros de cinema. Dessa cobra só faço acender o pito.

Outro momento em Peripatético parece sugerir alguma confusão entre subversão e subserviência: quando entram as “imagens reais”. O relato em OFF da personagem fala sobre o Salve Geral em 2006 e imagens, típicas de noticiários sensacionalistas surgem: o porquê dessa interrupção no próprio filme? Qual o motivo de inserir imagens que parecem legitimar a história real por trás da ficção do filme, para daí então contrapô-las? Precisar voltar a vida real é por vezes uma tarefa ética, por vezes uma prisão. Nem sempre é fácil decifrar por qual das duas se caminha, mas é preciso.

Uso aqui o termo “subserviência” num sentido de uma obra que parece frear seus próprios ímpetos, que parece, em determinados momentos, descrer de suas próprias forças. Violência em síntese. Porque acima de tudo e apesar de todas as negociações e contradições necessárias é preciso não se deixar crer que a branquitude inventou tudo (inclusive a negritude); porque, assim como na relação entre Rufe e Dana no livro “Kindred”, de Octavia E Butler, aquela mulher negra sabe que não pode se permitir acreditar que Rufe (o senhor branco), ou melhor, a violência daquele homem, a cria para o mundo. Porque se ele a cria a partir de sua violência pertencerá a ele também toda criação e intervenção que ela, através de sua fúria e de sua revolta, fizer no mundo para transformá-lo. Respiro.

Destes pontos que neste texto tentei organizar surgem dois caminhos que, penso, se atravessam. O primeiro e mais complexo é o de construir autonomia. Porque essa palavra, maravilhosa que é, aponta para outros tantos caminhos. Que são as falanges, mas também as encruzilhadas. Autonomia da forma, pra começo de conversa. É possível? É viável? Já foi feito? Arrisco que sim para as três perguntas. Como? Mudando as linhas de conhecimento. Há muito em Milton Santos, Lélia Gonzáles, Beatriz Nascimento. Há muito na literatura de umbanda e candomblé. Há muito em Omulu e Exu. Princípios, meios e fins. Estrutura, arquétipo, resiliência. Há muito em Carolina Maria de Jesus, há muito em Solano Trindade, há muito em Cuti. Diz Cuti, aliás, no seu poema que mais me fascina:

às vezes sou o policial
que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada

às vezes sou o zelador
não me deixando entrar
em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredito

às vezes sou o amor
que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo com o vazio

às vezes as migalhas do que
sonhei e não comi
outras o bem-te-vi
com olhos vidrados
trinando tristezas

um dia fui abolição que me
lancei de supetão no espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida
uma constituição que me promulgo
a cada instante

também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser

às vezes faço questão
de não me ver
e entupido com a visão deles
me sinto a miséria
concebida como um
eterno começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo
e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto em que me entrego.

às vezes!…

Tem a ver com grana, com movimento, com disputa de poder simbólico e prático. E, mais do que isso, tem a ver com uma geração formada por imagens. Na era das imagens. Mas que talvez não tenha ainda compreendido que sua função não é apenas a de recebê-las ou responder a elas, mas vitalmente a tarefa de concebê-las. Porque é isso que faz o popular. Porque é esse traço do popular que tira o sono das intelectualidades dominantes: autonomia.

O segundo caminho tem a ver com a necessidade de compreender o próprio processo como história. O fim da história é conversa pra boy dormir. Caminhar já é chegar, mas há que se chegar também. Aliás, é este um dos significados de Peripatético:

“2. que se ensina andando, passeando, como era o costume de Aristóteles”

No caminho há conversa, na conversa há diálogo, no diálogo há transformação. É preciso aquele texto sobre Tiradentes para esse agora. E esse agora para outros próximos. Construir conhecimento, difundir novas referências, desacreditar que o que violenta também pode fazer criar. Não. O que violenta nada faz além de atrasar, ou mais até tentar extinguir as criações. Abstrato demais esse texto? Desconjuntado, talvez? Fato é: existe. E deste um próximo. Há magia nessa roda e nesse tanto. Há que não se encantar pelo quebranto. Há que não ser encantar pelo quebranto.

 

 

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