7º Olhar de Cinema – Olhar Retrospectivo – Hienas

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Seguindo a cobertura sobre o Olhar Retrospectivo deste 7 Olhar de Cinema que neste ano traz panorama sobre a obra do diretor senegalês Djibril Diop Mambety, escrevo agora sobre Hienas, penúltimo filme da breve vida e da breve filmografia desse diretor fundamental para a história do cinema e das artes de modo geral.

Começo esse texto pontuando uma pequena reflexão que me veio à mente escrevendo e depois lendo o primeiro texto publicado nessa mesma cobertura, no qual falo sobre A Pequena Vendedora de Sol

Minha formação autodidata se pauta ainda por caminhos incertos sobre minha própria forma de escrever. Tenho sim a certeza de que não me interessa construir textos rebuscados e criptografados cheios de referencias e bibliografias que na verdade apontam muito mais para gestos de vaidade do que para um interesse em trocar idéias. Porque não sou Narciso e os filmes não são meus espelhos d’águas. Por isso, ao achar que em alguns momentos do primeiro texto minha paixão pelo filme me levou a elaborações às vezes que se complicavam meio à toa (em termos de escrita mesmo) assumo neste texto sobre Hienas a tarefa de abrir uma conversa mais informal, de trocar uma idéia e de compartilhar meu entusiasmo com Mambety e sua obra.

Digressão feita. Sigamos.

Como havia dito no texto anterior da cobertura o foco de nossa conversa sobre Hienas será principalmente a presença de um tipo de encenação presente neste filme e que talvez seja o traço de maior diálogo e ao mesmo tempo de maior ruptura entre Mambety e alguns de seus colegas cineastas e conterrâneos. A encenação a qual me refiro é a da mediação de conflitos que copia estruturas jurídicas institucionais (advogados, promotores, juízes etc) dentro das próprias comunidades, dos próprios vilarejos. Digo que há um diálogo porque em outros filmes de cineastas africanos vemos o uso da mesma construção (como em Bamako, por exemplo) e digo que há uma ruptura porque em Hienas essa encenação ganha uma dimensão alegórica muito maior.

A mediação neste filme é aquela acerca do julgamento de Dramaan Drahmen (Mansoour Diouf), dono de um mercadinho/bar na vila de Colobane, periferia de Dakar, e que passa a ser o centro da história quando uma antiga paixão, a agora absurdamente rica e poderosa Liguere Ramatou (Ami Diakhate) retorna à cidade e, depois de alguns dias, revela que o motivo de sua volta é a vingança planejada contra o sujeito.

Importante dizer que as noções de julgamento, de vingança e de disputas pessoais não existem nunca no filme dentro de uma moralidade estabelecida previamente. Ou seja: Liguere Ramatou não é uma vilã, muito menos uma personagem que existe apenas em função de sua relação com Dramaan Drahmen. Sua vingança, na verdade, é contra todo um projeto de mundo que a mutilou, humilhou e traumatizou pela obrigação de ter grana para só então ser considerada “alguém”.

Ramatou revela em dada altura que ficou rica trabalhando como puta pela Europa. E por que então ela usa como moeda de troca o desejo de que Dramaan Drahmen seja condenado e morto? Há sim um trauma pessoal (do abandono, da traição, do preterimento), mas há também o fato de ela saber que seria novamente explorada ao retornar rica; o fato de que ela aprendeu das piores formas que mais cedo ou mais tarde o poder corrompe; porque ela foi obrigada a se corromper pelo dinheiro porque era isso ou a morte. “O mundo me fez uma puta e agora vou transformar o mundo num puteiro”, ela diz. Precisa mais?

A ideia do trauma, aliás, é outra constante nos filmes de Mambety. Não apenas na idéia do trauma colonial propriamente dito, mas nos efeitos desse trauma sugerido diretamente no corpo de suas personagens. Em todos os filmes de Mambety vemos personagens com alguma debilitação física. Seja pela necessidade do uso de muletas, próteses ou cadeira de rodas o trauma perpetrado pela colônia (pela França, no caso) para Mambety é simbólico, histórico e físico ao mesmo tempo. E o filme aprofunda ainda mais o sentido dessas cicatrizes quando, por exemplo, nos revela que a personagem Liguere Ramatou não apenas tem próteses em uma das mãos e em umas das pernas, mas que são também essas próteses feitas de ouro. Dramaan pergunta: “Seu coração é de ferro também?”. Ramatou responde: ”Apenas a metade”.

Voltando a encenação do julgamento temos outro elemento fundamental: o papel do Juiz interpretado pelo próprio Djibril Diop Mambety de maneira absolutamente magistral. Sua primeira fala já dá conta da dimensão de sua presença: “Vocês sabem quem eu sou”, diz o Juiz/Mambety. É nessa posição e nesse movimento que o cineasta Mambety compreende e reflete seu próprio lugar: sobre ser (enquanto tenta não ser) um juiz das imagens.

E o sentido do Juiz no filme ganha força à medida que a trajetória de corrupção estabelecida pelo filme se desenvolve sendo atravessada por três momentos de julgamentos principais. Esse processo é das construções mais complexas e espetaculares na obra do cineasta senegalês por tratar com honestidade e dignidade os movimentos, tanto de Liguere Ramatou ao corromper seus conterrâneos por saber exatamente aquilo que sofrem, quanto de Dramaan Drahmen ao ter cada vez mais consciência sobre seus erros e seu destino. Como a presença de ambos vai se transformando aos poucos e transformando também suas relações com o espaço (do vilarejo e do próprio filme) são de força única.

Porque a chave principal aqui é exatamente essa consciência sobre os processos. Por isso quanto mais o filme caminha mais parece ser a encenação de uma encenação de uma encenação. Exemplo: o julgamento a principio sério (quando Ramatou faz sua proposta) se transforma depois numa meia verdade (quando o prefeito do vilarejo e seus seguidores conversam com Drahmen no bar/mercado) e por fim numa quase performance (o julgamento no deserto que culmina na sublimação do corpo de Drahmen)

Chegando à parte final desse texto acho que não seria possível pensar Hienas sem falar daquele que pra mim é, sim, um dos diálogos mais bonitos e dolorosos já escritos. O personagem do Professor (que entendemos naturalmente se tratar de um intelectual naquele espaço) conversa com Drahmen sobre todos os acontecimentos dos últimos dias. Em dada altura Professor vira e diz, com a voz embriagada de álcool e embargada de emoção algo como: “Eu sei que vou me corromper, eu vou me corromper, eu vou deixar que lhe matem, meu amigo, meu coração de leão está se transformando aos poucos num coração de hiena”. Na sala de cinema minha reação foi: uau. Só.

Fechando os caminhos do filme chegamos a imagem das hienas que em Hienas é muito presente justamente nessas várias camadas, ou seja, não apenas como um recurso óbvio, mas também como símbolo do que Mambety acredita ser o processo de corrupção das tradições que começa nas dominações coloniais e escravocratas e culmina nas dinâmicas que temos hoje.

“Começou o tempo das hienas” é uma frase muito repetida no filme, que antes de acabar ainda nos dá um plano antológico: um baobá no limite do horizonte e, no caminho daqui até lá o traçado das esteiras de tratores cruzam o trajeto inteiro. Se em um plano Mambety nos diz tanto, parece evidente a necessidade de mergulhar e estudar cada vez mais sua obra por completo.

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