7° Olhar de Cinema – Olhar Retrospectivo – A Pequena Vendedora de Sol

Com este texto sobre A Pequena Vendedora de Sol abro a cobertura crítica acerca do programa Olhar Retrospectivo que nesta edição do Festival Olhar de Cinema traz como um de seus homenageados o cineasta senegalês Djibril Diop Mambety. Além deste média metragem os longas A Viagem da Hiena e Hienas também ganharão textos que, pensados muito mais como ensaios sobre a obra de Mambety do que como críticas isoladas serão colocados em perspectiva uns com outros e com tantas outras possibilidades que me pareçam interessantes no processo.

Ainda, os textos a serem publicados tomarão como referencia para as reflexões três elementos constantes nos filmes (são 7 apenas na filmografia de Mambety, vale dizer) do cineasta e que apontam também para questões mais amplas. São estes elementos:

  1. Em A Viagem da Hiena: a noção, através das imagens, de um retorno diaspórico que nunca se encerra e a relação disso com os traumas pós-colonais
  2. Em Hienas: A encenação de mediações e julgamentos em comunidade e a representação das relações de poder e opressão nesses espaços
  3. Em A Pequena Vendedora de Sol: O procedimento em que a câmera revela não apenas uma cena específica mas encena também a observação dessas mesmas cenas por outras pessoas dentro do próprio filme

Espero, sinceramente, que este(s) texto(s) provoquem parte da mesma instiga e do mesmo prazer que tive ao ver estas obras na tela grande e que têm me servido (os filmes e os textos) como processo terapêutico num sentido bastante literal nestes dias em Curitiba. Apesar das feridas que eventualmente adquiro nestes espaços é bom quando vejo filmes que dão sentidos outros e maiores a existência da minha própria presença aqui. Devaneios feitos, desabafos dados, que nossa viagem comece.

A primeira pergunta que me veio à mente assim que este média metragem de Mambety, lançado em 1999, se encerrou na sessão aqui em Curitiba foi: o que posso eu, aqui, neste momento histórico, nestes processos todos que tenho vivenciando recentemente, nestes novos espaços de cinema pelos quais tenho enveredado, fazer com este filme diante de mim?

É curiosa, embora muitas vezes cruel, a impressão cada vez mais presente que carrego ao considerar que tenho sim, enquanto crítico e enquanto crítico negro a tarefa de assumir algumas responsabilidades diante destas obras. Não apenas num sentido de sublinhar a existência e o lugar histórico e geográfico de onde partem, nem mesmo na tarefa insuficiente de traduzir alguns filmes através de minhas próprias referencias. Mas sim na jornada de extrair e construir pelo seio dessas obras tentativas de alterar ou, ao menos, bagunçar as certezas e as verdades absolutas que ainda se instauram nas esferas de cinema. Verdades estas que, por exemplo, tender a adjetivar Mambety como o “Godard Africano”, dentre outras superficialidades.

Voltando ao filme, a trajetória da personagem Silii, a pequena vendedora de jornais, desconcerta porque, a princípio, parece dizer de maneira muito direta que aquele filme não será por nós aqui compreendido completamente sem que para tanto exista uma reformulação daquilo que nos forma enquanto público de cinema, enquanto críticos e críticas de cinema, enquanto responsáveis não apenas por elucidar, mas por posicionar um filme como este na histografia do cinema.

É interessante sim a tentativa de decifrar os códigos e escolhas de Mambety em A Pequena Vendedora de Sol, e de fato são vastas as possibilidades de elucidação, mas a crise que move este texto se dá justamente nesse impasse de não achar suficiente apenas meu posicionamento de traduzir o filme. Isto porque traduzi-lo significará, quase sempre, em termos gerais, a tentativa de encaixar sua proposta nestes mesmos padrões tomados já como verdades absolutas, antes de tudo. Uma entre as forças motrizes da obra de Mambety está em desautorizar (num sentido mesmo de autoridade enquanto exercício de poder sobre a imagem) as certezas, do público e da crítica, diante do filme. Desenvolvo melhor essas duas questões mais abaixo.

Ver A Pequena Vendedora de Sol hoje, em 2018, sugere também a instigante tarefa de rever minha própria presença e minhas próprias condutas de mente, alma e corpo numa sala de cinema e, mais até, sugere também o exercício autocrítico de tentar sempre imaginar como seria meu olhar se esta obra de Mambety fosse o primeiro filme que eu tivesse visto na vida, como seria se para chegarmos em Godard precisássemos antes passar por Mambety, e não o contrário. Como seria se para discutir cinemas europeus precisássemos antes passar pelos cinemas africanos. Chegamos então à relação da obra de Mambety e deste filme em específico com o público e com a crítica.

No que diz respeito ao público, neste filme, Mambety (e seu irmão Wip Diop na engenharia de som, é fundamental lembrar) parece não apenas buscar um tipo de ruído instantâneo. Ao contrário do que entendemos de modo geral como um cinema experimental, por exemplo, onde a desorientação é a chave principal, em A Pequena Vendedora de Sol (assim como em Hienas e A Viagem da Hiena) a reorientação dos sentidos é a diretriz. Há sim uma narrativa central, há sim o desenvolvimento de relações e de personagens, mas colocados num exercício em que o público (o olhar de fora) monta e remonta o filme o tempo todo. A força da sugestão é uma das grandes forças da obra de Mambety. O trauma na vida da jovem Silii é sugerido por sua debilitação física; as relações de poder são sugeridas pela presença do dinheiro; o deslocamento do olhar é sugerido na escolha de não mostrar apenas o que devemos ver, mas quem vê aquilo que vemos. Aqui chegamos à relação da obra de Mambety e deste filme com uma tradição de formação do olhar e de crítica propriamente dita.

Pensando então a relação deste filme e da obra de Mambety com o exercício crítico é necessário antes reconhecer o fascínio um tanto deslumbrado (do qual em parte já fui vítima, confesso) pela idéia de autoria na crítica (como citou a crítica Carol Almeida numa das mesas de debate aqui em Curitiba). A questão aqui é que esta noção de autoria – e Mambety parece muito consciente disso o tempo inteiro -, não se refere a uma idéia de autoralidade, mas de autoridade sobre as imagens. Mambety se opõe, através de seus filmes, à tradição da autoria no cinema como exercício de autoridade que cria o seguinte esquema: a crítica tem autoridade sobre os filmes que têm autoridade sobre o público.

É ao propor suas camadas de observação (vemos a briga entre um sujeito e uma mulher acusada de roubo na rua para em seguida observamos um grupo de pessoas observando esta mesma cena) o filme questiona a autoridade do olhar sobre a interpretação daquelas imagens e também o próprio olhar de seu autor diante das escolhas que faz ao ligar a câmera e construir suas encenações (é interessante tomar nota aqui, em reforço a essa impressão, de que em Hienas o próprio Mambety interpreta, de maneira extraordinária, justamente a figura de um juiz). A nossa relação pessoal com as imagens não deixa de existir, mas há no meio do caminho a sugestão de que não somos apenas nós, aqui fora, quem vemos os filmes. Assim, qualquer tentativa de uma interpretação autoritária e definitiva daquelas imagens é enfraquecida de saída. A obra de Mambety não tem o desejo de ser incompreensível, mas parece ter muita consciência do tempo que levaria, e ainda levará, para ser compreendia.

Por isso, repito, encerrando esse primeiro texto: não basta a tradução de sentidos “gramaticais” do cinema (filma assim, filma assado, personagem representa isso ou aquilo etc) para haver uma real aproximação às relações propostas em A Pequena…, assim como nos outros dois filmes de Mambety referenciados nesse texto. É preciso buscar em minhas e em nossas próprias crises, lacunas e lugares que ecoem esses filmes da maneira mais autônoma e menos periférica possível. É preciso – tentando responder a idéia de responsabilidade colocada por mim mais acima -, através desses filmes, que eu me incumba do desafio de assumir as ingenuidades do meu próprio olhar. Ingenuidades essas que talvez indiquem e permitam o renascimento de algo novo, exatamente dentro das contradições que essa sentença também sugere.

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