Redemption e Entretanto: a memória lúdica, em Miguel Gomes

Miguel Gomes, cineasta português que despontou há cerca de três anos com seu longa “Tabu” afirmou certa vez, quando perguntado sobre o porquê de seus filmes geralmente se dividirem em capítulos, que o cinema de um caminho só não lhe interessa(va). Neste sentido, reconhecer Miguel Gomes como um dos cineastas mais interessantes atualmente é perceber que a característica maior de seus filmes está numa fluidez particular, ou, ainda, numa metamorfose prática entre elementos de fantasia e realidade. Tal metamorfose é notável também em dois de seus curtas: Redemption e Entretanto.

Em “Entretanto”, curta de 1999, o processo de construção das memórias é matéria-prima aliada a um coming of age poético e peculiar. Neste filme, o diretor enfoca o movimento de nascimento e registro das memórias de Rita, sua protagonista. Em “Entretanto”, a memória que se constrói é solidificada na medida em que a jovem amadurece.

Guiando-se por episódios vividos pela protagonista, o curta localiza sua fantasia nos ambientes que a cercam ao passo em que localiza a realidade quase como substância própria do que a jovem sente ao longo do filme. Subvertendo convenções, novamente, é como se Gomes propusesse, aqui, que os espaços físicos, os contatos, as fruições são a fantasia, e a realidade é tão somente o sentimento e a maneira como a jovem interage e se comporta diante do que vive e sente. Por isso, aliás, da existência de passagens aparentemente soltas com trilhas casuais e as várias conexões entre imagens.

No início do filme, a personagem está sentada numa arquibancada enquanto um grupo de amigos joga rugby. Depois de algum tempo outra menina senta-se também. Parece haver certo estudo, certa curiosidade entre ambas, delatando talvez uma atração, quem sabe. Gomes não explicita. Mas, se entendemos que existe sim uma atração e que ambas estão conversando a sós pela primeira vez, por exemplo, o diretor brinca com isso e a montagem abandona a sutileza do momento para voltar à imagem pateticamente rude dos amigos jogando Rugby. Não só o filme brinca com a particularidade das memórias como também salienta seus pontos de vista sobre o amadurecimento: as jovens conversam, fumam e cruzam as pernas como se mulheres num filme dos anos 60, enquanto os rapazes se atiram todos juntos na busca da bola oval.

Em outro momento, numa festa, há uma breve passagem na qual o filme aponta, em sutileza genial, como a memória pode ser relativa (e poderosa). A jovem protagonista está parada diante do que parece ser uma pintura abstrata. O plano, no entanto, restringe os espaços. Assim que um conhecido da moça (de quem ela parece gostar), diz seu nome (“Rita!”), ela sorri. Mas ele passa e diz apenas “tens uma coisa entre os dentes”. A feição da moça muda e o plano abre, ganha dimensão, supondo, talvez, a construção de uma memória constrangida e solitária a partir de uma passagem completa de banalidade. Logo em seguida a jovem procura um espelho.

Seguindo, na mesma festa, após uma sequência que mostra cenas distorcidas de um filme pornô na televisão, mostra-se a jovem protagonista com mais dois amigos, todos flutuando numa boia em cores infantis enquanto se beijam pausada e democraticamente. O bonito plano que encerra a sequencia marca a árvore de plástico que faz parte da boia como se numa paisagem distorcida, de memória. A sequencia termina.

No entanto, mais a frente, seu simbolismo retorna quando os três jovens surgem, agora numa praia, fazendo o mesmo que faziam na sequencia anterior. Intercalando as duas paisagens o filme localiza, como dito acima, realidade e fantasia em posições inversas. A fantasia se aplica no ambiente que, não à toa, se transforma de um plano à outro, mutável como qualquer fantasia a partir da visão de quem a produz. Se a jovem amadurece através de experiências marcantes, o ambiente ao seu redor se altera e se solidifica, tão logo sua memória. Assim, o fluxo entre realidade e fantasia está dado.

Em sua parte final, numa longa sequencia sem cortes, “Entretanto” define o amadurecimento de sua protagonista ao retirar foco da dupla de amigos e entregar-se completamente à jovem.

No primeiro momento da sequencia, aberto num lindo plano, ela surge dominando o enquadramento enquanto os dois surgem gradativamente minúsculos no campo que se aprofunda. A medida que os dois se afastam, a personagem parece crescer na tela.

No segundo momento, aos poucos, o rosto da jovem transforma-se numa quase paisagem. Novamente, os sinais de amadurecimento realocam o ambiente e os símbolos de memória se alteram. Se o que cerca a jovem é a fantasia das memórias que ela manipula sem nem perceber, e se sua mudança e amadurecimento implicam em alterações no entorno, logo, aquilo que simboliza suas memórias também muda. Retomando, a paisagem da primeira memória é infantil. A paisagem da segunda memória é mais sólida e etérea. E ao sutilmente deixar de lado a relação com os dois rapazes, a paisagem da memória passa a ser então o próprio rosto da jovem que surge, assim, face e paisagem, realidade e fantasia, ao mesmo tempo.

Esse movimento ganha força quando se nota que a sequencia só se interrompe com a volta dos dois jovens que, propositalmente, retiram a protagonista de sua solidão pontual.

“Entretanto” é uma pérola porque usa suas abstrações como matéria-prima, buscando estabelecer conexões, não através de lógicas explicitas postas em relevo, mas de uma sensorialidade própria, afinal, das memórias.

Seguindo, se “Entretanto” foca o movimento de nascimento e registro das memórias, “Redemption”, lançado 14 anos depois, toma registros de memórias já nascidas como ponto de partida para analisar o caminho de seus definhamentos. A lógica de subjetividade da memória que marca os 26min de curta é própria, mais uma vez, da dupla articulação entre fantasia e realidade que Gomes defende, organiza e subverte em seus filmes. No caso de “Redemption” mais até do que “Entretanto”.

De saída é interessante perceber como o início em tons documentais, com imagens em estética de arquivo pontuadas por vozes off promove, não um movimento de aproximação em direção ao que se mostra, mas sim um movimento de afastamento determinante e proposital. Contrariando as premissas de boa parte do cinema “de realidade” produzido nos últimos anos, as imagens, aqui, localizam quem assiste numa espécie de voyeurismo, como se gavetas de memórias se abrissem aos nossos olhos e a única possibilidade fosse se entregar a curiosidade. Assim como faz, aliás, de certa forma, o pequeno menino que aparece no começo do filme. Esse afastamento inicial é estratégico para o que virá depois.

A articulação de sentidos organizada em “Redemption” passa, fundamentalmente, pela gramática de cinema utilizada, que origina uma linguagem construída não só pela natureza estética das imagens em si, mas por sua aparente desorganização. A impressão de que o processo de agrupamento das imagens foi aleatório e estanque é premeditada porque a desorganização inicial estratégica de “Redemption” serve, sobretudo, para retirar de vista qualquer eixo de identificação entre as imagens e quem assiste.

Não há, em outras palavras, um espelho que nos coloque imediatamente do outro lado. Há, sim, imagens de pessoas correndo num quintal, cenas de um casamento, momentos de confraternização entre desconhecidos. Por isso a relação primária que o filme propõe é de abstração. E não à toa a voz off surge entidade, em falas tão flutuantes quanto as imagens. O respeito pela memória registrada de sabe-se lá quem é a única aproximação que o filme permite inicialmente.

A emulação da realidade inserida nas memórias visuais dá espaço, aos poucos, à medidas de fantasia. Esta metamorfose vai ganhando força na medida em que as imagens mudam e com elas mudam as vozes que falam e, principalmente, seus sotaques. Alemão, Português, Italiano e Francês são os idiomas que, aqui, se conectam. Esta conexão, no entanto, não é aberta. O que o filme de Gomes define, na verdade, são espaços que aceitam a hipótese de uma espécie de conexão flutuante entre vozes/vozes e vozes/ imagens.

Novamente, a abstração é o elemento chave. A falta de especificidade de cada imagem e sua interposição solta é o que permite imaginá-las como parte de um registro de memória compartilhado pelas quatro vozes. Curioso ainda é considerar como cada um dos sotaques marcantes posiciona, naturalmente, cada voz numa distância espacial própria, ao passo em que as imagens realocam tudo num mesmo cosmo, numa mesma nuvem de memória. É como se aquilo que, na tese, criaria distâncias, em “Redemption” definisse justamente a aproximação de tudo.

O definhamento dessa nuvem de memórias avança e, como símbolo, as imagens começam a sofrer como se processos do tempo. Surgem manchas, fantasmas, descolorações, dessaturações e sobreposições. E o mais bonito é a sensação entregue pelo filme de que não são imagens específicas que se deterioram, mas a substância da memória em si. As imagens, agora, não são imagens apenas, mas fluidos de uma memória que é, no fim de tudo, substância palpável.

Por fim, a fantasia se sobrepõe definitivamente à realidade na brincadeira genial de Gomes, que poderia ser entendida como o plotwist de seu curta. Ao fim das imagens, as vozes ouvidas em Alemão, Francês, Português e Italiano revelam-se como “sendo” de Ângela Merkel (primeira ministra da Alemanha), Nicolas Sarkozy (ex-presidente da França), Pedro Passos Coelho (primeiro ministro de Portugal) e Silvio Berlusconi (ex-primeiro ministro da Itália), respectivamente.

O filme de Gomes constrói, fantasiosamente, a memória das quatro figuras sem situar a quem assiste e, num movimento inesperado, retira seu filme de um registro de memória em abstração para lançá-lo como desnudamento de figuras públicas distantes de nós. É precisamente nessa virada, nesse gesto de transformar a memória anteriormente substancial em atestado da intimidade de pessoas distantes de nós (em vários sentidos) que o filme nos aproxima e nos puxa para dentro de si em definitivo. O fluxo de fantasia proposto por Gomes ao longo do filme torna tudo mais real. Assim como o fluxo de realidade meticuloso presente do começo ao meio do filme dá potência a fantasia que se finaliza. Curiosamente.

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