Janela Int. de Cinema do Recife – 1-Berlin-Harlem

Duas coisas marcam Berlin-Harlem, filme alemão de 1974, dirigido por Lothar Lambert em plena ebulição da metamorfose cultural que, décadas depois, marcaria a capital do país. Há, de saída, a defesa de uma forte tese no filme: as relações multiculturais são antes marcadas pelo julgamento do que pelas relações de câmbio e compartilhamento de experiências. Assim, Berlim-Harlem parece se dividir em dois campos: o da investigação dos câmbios culturais em curso à época, e o da construção de juízos de valor que determinam as visões das pessoas umas sobre as outras.

Não é, então, intenção do filme, em momento algum, repensar identidades, mas organizá-las num panorama que as amplifique dentro do lugar que sempre ocuparam, num determinado contexto. Berlim-Harlem é, a princípio, um anagrama de tabus. A lógica mais recorrente no filme de Lambert é criar situações de desajuste, de choque, para inferir, em seguida, possibilidades de julgamento acerca do fenômeno. Mostra-se o personagem chegando num ambiente que o rejeita e em seguida uma sequência repleta de closes em olhares e feições entre personagens. Mostra-se o sexo explícito entre dois homens e o julgamento que repousa ali, aos olhos de um terceiro. A lógica é quase sistemática. O corpo negro é posicionado como ferramenta de desconforto, oferecido assim de um olhar branco, para outro olhar branco.

Seguindo, o primeiro elemento, o do choque, é assim construído pesadamente na dramaturgia do filme. A conduta e natureza das personagens, suas ações, seus fluxos de consciência (ou, mais precisamente, a ausência de tudo isso) as definem como passíveis do julgamento alheio. O segundo elemento, o do julgamento propriamente dito, é assim construído imageticamente. Há, como dito acima, o desnudamento dos corpos (do corpo negro, sobretudo) a um olhar intruso, o grande uso de closes nos olhos de personagens enquanto observam umas as outras e ao redor, ou ainda o uso de diálogos peculiares com personagens centralizados no enquadramento, olhando nos olhos da câmera.

Há, sim, uma potência resguardada em Berlim-Harlem. O longa resvala, já em 1974, mesmo que superficialmente, com temáticas contemporâneas (a sexualização do corpo negro, a solidão da mulher negra). O corpo, negro sobretudo, em Berlim-Harlem, é filmado sem concessões. O problema é que justamente dessa defesa dos corpos explícitos surge o erro do filme, aquilo que transforma seus principais trunfos também em suas maiores armadilhas. A escolha de desnudar o corpo negro a determinado olhar embranquecido da época, não só anula todo o processo anterior, como enuncia também a quem, defitinitivamente, o discurso do filme pretendia atingir, ao menos quando lançado.

Jonh, o protagonista, primeiro casa-se com uma mulher branca em uma Alemanha ainda em terapia com sua própria história. Depois se revela parte de um mundo composto por garotos de programa, por relações com variadas pessoas, por traços do que hoje poderia se apelidar “libertinagem”. Sequindo, Jonh tem um caso com um sujeito, gay e alemão. Depois Jonh, aqui já sobre o crivo de julgamentos acumulados, é definido ainda por violentar uma jovem branca, abusar da boa vontade do casal de idosos brancos, matar seu próprio advogado branco e receber um boquete em praça pública de um cara branco. A palavra “branco” se repete tanto, não à toa. Os acontecimentos são tão arbitrários que existem às custas da completa desumanização de seu protagonista. O serviço ao julgamento alheio é de tal forma marca da existência de Jonh, que ele acaba soterrado pelo próprio filme. Sequer tem voz.

A relação inter-racial que abre o filme (abrindo também a trajetória de Jonh) dá espaço a uma imersão digressiva nas relações construídas e destruídas pelo protagonista, ao longo da narrativa. É em Jonh, em seu corpo e sua existência que pesarão as experiências do filme diante do julgamento. E quanto mais a objetiva filma Jonh como signo de espanto, mais o problema de Berlim-Harlem se agrava: sempre que tenta elucidar a natureza dos momentos de julgamento, o filme traz junto o peso do martelo. Lambert não investiga a natureza dos julgamentos no corpo negro, por exemplo. Pelo contrário, apenas o lança na tela de modo a consolidar um espanto do olhar que reage a julgamentos consolidados muito antes. Ao tentar duvidar dos julgamentos que investiga, a impressão é que Berlim-Harlem tende a reafirmá-los.

Jonh, o protagonista, em alguns momentos, parece carecer mesmo até de alguma consciência. Não articula nada, não se posiciona, não se movimenta. Existem, assim, ele e seu corpo, apenas para escudar, na representação de seu próprio lugar (o de corpo indevido) provocações fáceis à julgamentos alheios. Nota-se, aqui, o desejo pelo choque já superando qualquer indício do que o filme parecia carregar no começo.

Num efeito dominó, a cada nova relação que o protagonista negro e seu corpo constroem, parece se acrescentar um nível a mais de manifestações que almejam certo desconforto em quem assiste. A medida em que percorre suas 1h40min, mais a câmera aponta para Jonh como réu. O único momento em que essa lógica se rompe surge justamente quando, pela primeira e única vez, o filme oferece a visão que Jonh captura do mundo, sua subjetiva, na sequência em que observa pessoas na rua. No restante, o personagem surge sob constante julgamento e incessante vigilância das objetivas sobre seu corpo. Jonh é, antes de tudo, uma cobaia de discursos.

Usar a subjetividade, de experiências e lentes, como meio de pensar a natureza do julgamento em sociedades multiculturais é promissor. Mas é este precisamente o caminho que Berlim-Harlem abandona desde o começo. Tomado, talvez, pelo desejo e urgência de chocar o imaginário de sua época, numa dialogia que se codifica apenas entre dois olhares brancos, o filme de Lambert requisita, para tanto, a supressão de algumas identidades, já minoritariamente representadas, que respondem no filme somente aos efeitos que causam no olhar hegemônico.

Para sustentar suas supostas provocações, Berlim-Harlem abandona, aos poucos, as reflexões imagéticas sobre o ato de julgar por si só, priorizando o impacto das imagens. É como se o filme observasse, aos poucos, seu protagonista, Jonh, em falsa paralaxe. Embora afirme observá-lo de outras posições, o status de silenciamento se mantém. A identidade negra (assim como a de outras minorias) está, aqui, sempre à serviço da retórica dominante, como moeda de uma troca de farpas ideológicas.

Por isso, Berlim-Harlem pode mesmo ter chocado em seus anos de lançamento, mas agora, revela apenas como algumas tentativas de causar incômodo são cômodas demais. Como algumas tentativas fílmicas de questionar a natureza do julgamento (e do preconceito) alheio acabam mesmo por legitimá-los. O que Berlim-Harlem parece perder pelo caminho é que o espanto do explicito não tem força por si só, sobretudo a partir do momento em que negocia a posição de uns e umas (aqui, brancos heterossexuais) em detrimento à posição de outros e outras (aqui, negros e gays, sobretudo). O filme torna-se, sem sustentação e sensibilidade, vazio de qualquer sentido duradouro, preso num olhar particular e, principalmente, muito problemático acerca de seu próprio tempo. E que de tão problemático talvez nem sobre seu próprio tempo fale de maneira consistente.

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